
Após longos nove meses de adiamentos, a empresa alemã Isar Aerospace realizou o segundo lançamento do seu foguetão Spectrum às 2012UTC do dia 5 de Setembro de 2026.
O lançamento teve lugar a partir de uma plataforma de lançamento dedicada localizada no Centro Espacial de Andøya, Noruega, e a bordo deste segundo lançamento seguiram cinco pequenos satélites, no que constituiu a missão “Unward and Upward“.

A missão “Onward and Upward” tem como objectivo validar os sistemas críticos do veículo de lançamento em condições operacionais. Este é o primeiro voo da Isar Aerospace a transportar cargas úteis, incluindo cinco CubeSats e uma experiência não separvável. “Os conhecimentos que obtivermos com esta missão irão fortalecer a infraestrutura espacial da Europa,
uma capacidade essencial para a prontidão da defesa e a resiliência económica”, afirmou Alexandre Dalloneau, Vice-Presidente de Missões e Operações de Lançamento da Isar Aerospace.
Segundo um comunicado da agência espacial europeia após a confirmação do sucesso da missão, “Inicialmente apoiada pelo Centro de Incubação de Empresas da ESA, a Isar Aerospace recebeu várias rondas de cofinanciamento no âmbito do programa Boost! da Agência Espacial Europeia, que apoia iniciativas comerciais que oferecem serviços de transporte espacial. Ao abrigo do contrato Boost!, a ESA apoiou o desenvolvimento do serviço de lançamento Spectrum, incluindo este segundo voo Spectrum.
Em 2025, a Isar Aerospace foi um dos operadores de serviços de lançamento selecionados para o Desafio Europeu de Lançadores (European Launcher Challenge), tendo o seu contrato sido assinado recentemente. Como primeiro marco importante, o Desafio Europeu de Lançadores exige que os fornecedores de serviços de lançamento realizem um lançamento orbital até 2027. Este voo demonstrou com sucesso o sistema de lançamento Spectrum, tornando a Isar Aerospace o primeiro fornecedor a atingir este marco no Desafio Europeu de Lançadores.”
Os cinco satélites a bordo foram seleccionados no âmbito do Programa Boost! da Agência Espacial Europeia. Estes satélites são: CyBEESat, TriSat-S, Platform-6, FranSat-1 e SpaceTeamSat-1, além da experiência não separável “Lei It Go”.
Também designado “Tubsat-33”, o satélite CyBEESat foi desenvolvido pela Universidade Técnica de Berlin (Technische Universität Berlin) e é baseado no factor de forma CubeSat-1U, tendo uma massa de 1 kg. Está equipado com um controlo passivo de atitude e amortecimento de nutação, capacidades de computação de bordo baseadas em Linux e funcionalidades de segurança. As comunicações são feitas através de um módulo de comunicação VCOM para a banda VHF/UHF de missão de curta duração (SDM).

Baseado no factor de forma CubeSat-3U, o satélite TRISAT-S é uma missão científica e educativa eslovena liderada pela Universidade de Maribor em cooperação com a SkyLabs, Eslovénia.
A missão centra-se na demonstração de tecnologia, investigação científica e educação, com particular relevância para futuras missões de longa duração e no espaço profundo. O seu principal objetivo é a validação de subsistemas de naves espaciais que permitam uma operação autónoma prolongada com disponibilidade mínima de energia.
Um objetivo central da missão é a demonstração de capacidades avançadas de hibernação de baterias. O TRISAT-S avalia o desempenho de baterias primárias com autodescarga excepcionalmente baixa e rápida recuperação de tensão após longos períodos de inatividade orbital. As medições contínuas em órbita são utilizadas para avaliar o comportamento químico da bateria, a degradação induzida pela radiação e as características de vida útil a longo prazo. Estes dados apoiam modelos de previsão melhorados para sistemas de armazenamento de energia de naves espaciais destinados a longos períodos de inatividade.
Um segundo objetivo principal é a demonstração de navegação ultraminiaturizada baseada em imagens. O satélite transporta um sistema visual de última geração e ultrabaixo consumo de energia, concebido para fornecer consciência situacional de campo completo. O sistema auxilia na determinação da atitude e da órbita e serve como precursor para a navegação autónoma em ambientes orbitais e de espaço profundo, onde os auxílios à navegação convencionais não estão disponíveis ou são pouco fiáveis.
O satélite foi concebido pela Universidade de Maribor, que lidera o conceito da missão, o design do sistema e os objectivos científicos. A SkyLabs contribui com expertise industrial, engenharia de satélites e integração. A missão enfatiza a utilização de eletrónica altamente integrada e de baixo consumo de energia, elementos autónomos de temporização e controlo e sistemas óticos miniaturizados adequados para plataformas de pequenos satélites.
O TRISAT-S incorpora um elemento de temporização de ultrabaixo consumo de energia que programa autonomamente os ciclos de ativação durante a hibernação. Isto permite uma gestão precisa de energia e minimiza o consumo desnecessário. A arquitetura de medição a bordo suporta a monitorização contínua dos parâmetros da bateria, das influências ambientais e da integridade do sistema durante períodos prolongados.
O subsistema de imagem foi optimizado para minimizar a massa, o volume e o consumo de energia, ao mesmo tempo que oferece resolução e campo de visão suficientes para o processamento relacionado com a navegação. Juntamente com o subsistema de energia, forma uma demonstração integrada de operação autónoma em termos de energia e consciência situacional da nave espacial baseada na visão.
Desenvolvido pela EnduroSat, o CubeSat-6U Platform-6 irá realizar uma missão de demonstração tecnológica e transportar várias cargas comerciais.
A arquitetura do satélite permite que múltiplas cargas úteis operem em conjunto de forma fiável num único NanoSat. Cada carga útil tem acesso a processamento, energia e capacidade de registo a bordo, possibilitando a multitarefa no espaço. O Serviço de Satélite Partilhado inclui a integração, validação e testes, lançamento e operação do satélite e de todas as cargas úteis, comprovando assim uma melhoria paradigmática na acessibilidade ao espaço e simplificando as operações espaciais. O acesso direto aos dados das cargas úteis está disponível instantaneamente na nuvem através da Estação Terrestre Digital da EnduroSat.
O satélite FramSat-1, com uma massa de 1,3 kg e baseado no gactor de forma CubeSat-1U, foi desenvolvido pela Orbit NTNU (University of Science and Technology Trondheim), uma organização estudantil voluntária que forma os engenheiros espaciais do futuro, construindo satélites com subsistemas desenvolvidos internamente, experiência prática e dedicação.
A missão FramSat é uma plataforma via satélite para demonstrar a tecnologia de ponta norueguesa. O FramSat é a primeira missão em parceria da Orbit NTNU, na qual forneceu a plataforma e sistemas, com o apoio do patrocinador, a Eidsvoll Electronics AS, para testar e verificar o seu sensor solar. Dois satélites, o FramSat-1 e o FramSat-1.5, serão lançados em 2026.
Desenvolvido pela TU Wien Space Team, o SpaceTeamSat-1 é baseado no factor de forma CubeSat-1U. O objetivo da missão foi o desenvolvimento de um CubeSat-1U para fins educacionais e operá-lo em órbita. Além disso, é operada uma estação terrestre dedicada para comunicação com o CubeSat. Isto dará aos estudantes na Áustria a oportunidade de executar software desenvolvido por si na carga útil educativa do satélite.
A carga útil do CubeSat “STS1” consiste num Raspberry Pi ao qual estão ligados vários sensores e câmaras. Os alunos podem então utilizar o Python para aceder a estes dispositivos e realizar medições, captar imagens e vídeos. Uma vez que o código tenha sido validado com sucesso em terra, é transmitido através de comunicação por radiofrequência para o CubeSat “STS1”, que executa o código e transmite os resultados das experiências de volta para a estação terrestre. A partir daí, os dados (processados) são entregues aos alunos. Os dados podem depois ser analisados, interpretados e apresentados na etapa final. Outro aspeto importante é que as equipas de alunos têm a oportunidade de conhecer todo o processo de comunicação de dados espaciais. Para tal, será instalado um Centro de Controlo de Missões na sede da TU Wien Space Team, que exibirá os dados de estado atuais, a posição do CubeSat, etc.

A experiência “Let It Go” da Dcubed, irá testar sistemas mecãnicos em órbita, tais como o extrator de micro pinos uD3PP que se perfila como a solução perfeita para a actuação linear, garantindo que os mecanismos críticos das naves espaciais são bloqueados durante o lançamento e accionados em órbita, desencadeando estruturas implantáveis, como painéis solares e antenas.
O foguetão Spectrum
O foguetão Spectrum é um veículo lançador orbital com um comprimento de 28 metros e um diâmetro de 2 metros. É um lançador a dois estágios com uma capacidade de carga de 1.000 kg para a órbita terrestre baixa ou 700 kg para uma órbita sincronizada com o Sol, sendo especialmente desenhado para o lançamento de satélites de pequeno e médio tamanho.
A empresa promoveu o lançador por possuir uma flexibilidade considerável, permitindo-lhe satisfazer melhor as variadas exigências dos seus potenciais clientes.


O seu primeiro estágio está equipado com 9 motores Aquila que consomem oxigénio líquido e propano, proporcionando assim uma propulsão limpa e de alto desempenho que minimiza o impacto ambiental do Spectrum. Estes propulsores oferecem o impulso específico de maior densidade de todos os combustíveis à base de carbono, acionando o desempenho do Spectrum. Cada motor desenvolve 75 kN.
O segundo estágio está equipado com um único motor Aquila Vacuum, que desenvolve 95 kN. Este motor de segundo estágio será equipado com um sistema de ignição múltipla, permitindo que seja desligado e religado caso o perfil de lançamento exija tal arranjo, eliminando a necessidade de um terceiro estágio.

O Spectrum poderá ser lançado desde o Porto Espacial de Andøya e a partir do CSG Kourou, Guiana Francesa.
Em Abril de 2021, a Isar Aerospace assinou um acordo de 20 anos para acesso exclusivo a uma das plataformas de lançamento em Andøya. Devido à sua localização, o lançador pode atingir órbitas
com inclinações entre 87,4° e 108.º, almejando as órbitas sincronizadas com o Sol e as órbitas polares.
Em Julho de 2022, a Isar Aerospace anunciava que havia sido selecionada pelo Centro Nacional de Estudos Espaciais de França (CNES) para realizar operações de lançamento no antigo local de lançamento Kourou Diamant, no CSG Kourou, que tinha sido utilizado pela última vez para um lançamento orbital em 1975. Devido à baixa latitude deste local de lançamento, pode ser utilizado para órbitas equatoriais e de inclinação média.
O Porto Espacial de Andøya
O denominado “Andøya Space”, também conhecido como “Centro Espacial de Andøya”, é um polígono de lançamento de foguetões, campo de treino de foguetões e porto espacial na ilha de Andøya (a mais setentrional do arquipélago de Vesterålen) no município de Andøy, no condado de Nordland, Noruega.
Desde 1962, mais de 1.200 foguetes-sonda e suborbitais de várias configurações foram lançados a partir do local.
A Andøya Space é uma sociedade civil de responsabilidade limitada com a sua propriedade dividida entre dois grupos: 90% pelo Ministério Real Norueguês do Comércio e Indústria e 10% pela empresa Kongsberg Defence Systems. As operações ali realizadas são feitas numa base comercial, apoiando também as instalações de lançamento SvalRak em Ny-Ålesund, Svalbard a Norte. A instalação forneceu operações para missões da ESA, NASA, JAXA e DLR, bem como investigação científica relacionada.
Imagens: Isar Aerospace, ESA