Publicado em 15 de maio de 2026 por Rui C. Barbosa

Missão logística CRS-34 lançada para a ISS

Após dois adiamentos devido às más condições meteorológicas, o lançamento da missão logística CRS-34 para a estação espacial internacional teve lugar às 2205:41UTC do dia 15 de Maio de 2026 a partir do Complexo de Lançamento SLC-40 do Cabo Canaveral SFS, Florida.

O lançamento do veículo Dragon-2 SpX-34 foi realizado pelo foguetão Falcon 9-639 (B1096.6), com o primeiro estágio B1096, na sua 6.ª missão, a ser recuperado com sucesso na Zona de Aterragem LZ-40, em Cabo Canaveral.

O astronauta da Jack Hathaway (NASA) e a astronauta da Sophie Adenot (ESA) vão monitorizar a chegada do veículo que permanecerá acoplada ao laboratório orbital durante cerca de um mês antes de amarar no Oceano Pacífico, devolvendo dados científicos e equipamentos essenciais, às equipas na Terra.

O veículo de carga acoplou de forma automática com a estação espacial internacional às 10372UTC do dia 17 de Maio, no porto IDA-3 do módulo Harmony.

A cápsula Dragon-2 utilizada neste voo, o veículo C209, realiza a sua 6.ª missão. Estes veículos de carga são similares à Crew Dragon, mas estão equipados com sistemas de suporte de vida reduzidos, não possui motores Super Draco de abortagem e apenas duas aletas de estabilização aerodinâmica. A segunda geração destes veículos de carga é capaz de realizar acoplagens automáticas com a ISS.

A bordo segue um total de 2.928 kg de carga, sendo 2.132 kg de carga pressurizada e 816 kg de carga não pressurizada. Da carga pressurizada, 618 kg correspondem a mantimentos para a tripulação, 831 kg de investigações científicas, 468 kg de equipamentos para a ISS e 84 kg de recursos informáticos.

Algumas das cargas científicas a bordo da CRS-34 são: a ODYSSEY, Green Bone, SPRARK, CLARREO Pathfinder, Laplace e STORIE.

A experiência ODYSSEY (Outcomes of microbial Dynamics during Spaceflight and in SimulatEd microgravity) irá avaliar a precisão com que os simuladores de microgravidade terrestres recriam as condições espaciais. Os investigadores vão examinar o comportamento bacteriano no espaço e comparar os resultados com experiências realizadas em simuladores de microgravidade na Terra.

Os cientistas utilizam simuladores de microgravidade para conduzir estudos de biologia espacial na Terra, mas poucos estudos avaliaram a precisão com que estes simuladores recriam a microgravidade real e se as experiências neles realizadas são comparáveis ​​às conduzidas na estação espacial internacional. O projeto ODYSSEY avalia a formação de biofilme e a troca de material genético entre duas espécies de bactérias em voos espaciais e em câmaras de microgravidade simulada na Terra. A comparação dos resultados pode auxiliar os investigadores a determinar se os simuladores terrestres podem ser considerados substitutos para a investigação em voos espaciais e a obter uma melhor compreensão dos mecanismos por detrás da formação de biofilme e da troca de material genético quando expostos a condições semelhantes às do espaço.

O projeto Green Bone vai observar como as células ósseas crescem e se desenvolvem no espaço, numa estrutura óssea feita de madeira. Os resultados obtidos em microgravidade poderão ajudar os investigadores a melhorar os produtos para o tratamento de doenças ósseas frágeis, como a osteoporose

A Green Bone está a testar um novo andaime ósseo feito de madeira de rattan que se comporta como osso verdadeiro. O projeto Green Bone in Microgravity (Green Bone) visa cultivar células ósseas humanas num andaime de madeira de rattan especialmente tratado, num ambiente de microgravidade que simula a osteoporose. Os resultados desta investigação podem levar a uma nova forma de combater a osteoporose e oferecer aos cirurgiões melhores opções de cicatrização óssea para os seus pacientes.

A experiência SPARK (Spleen Activity in Space Anemia and Red Cells Kinetics) irá avaliar como os glóbulos vermelhos e o baço se alteram no espaço, visando o bem-estar dos futuros astronautas. Os investigadores vão analisar amostras humanas e imagens recolhidas antes, durante e depois dos voos espaciais para identificar formas de proteger a saúde dos astronautas durante missões espaciais de longa duração.

O projeto SPARK utiliza técnicas de imagiologia no espaço para estudar como o baço se altera e como os glóbulos vermelhos se degradam no ambiente espacial. Os investigadores analisam amostras de sangue recolhidas antes, durante e depois da missão para monitorizar as alterações na composição química e nas células sanguíneas. Esta investigação visa compreender melhor os mecanismos biológicos da anemia relacionada com o espaço, de forma a encontrar formas de proteger melhor a saúde da tripulação durante missões espaciais de longa duração. 

CLARREO Pathfinder para medir a luz solar refletida pela Terra e pela Lua.

A experiência Laplace estudará o movimento e a colisão de partículas de poeira em microgravidade para compreender o movimento de partículas no espaço. Os investigadores esperam aprender mais sobre as origens da Terra e fornecer uma compreensão fundamental de como surgiram os planetas do nosso sistema solar e mais além.

A investigação de Laplace estuda dois fenómenos: a evolução e o crescimento de agregados de poeira em discos protoplanetários e a avaliação dos aspetos fundamentais dos fenómenos de transporte de gás e partículas em nuvens de poeira. Os resultados podem fornecer aos investigadores informações detalhadas sobre como se formam os planetas e os sistemas solares.

O STORIE (Storm Time O+ Ring current Imaging Evolution) irá monitorizar partículas carregadas em órbita em torno da Terra, que reagem às condições meteorológicas espaciais e podem afetar ativos como redes elétricas e satélites. O instrumento poderá ajudar os investigadores a obter conhecimento para melhor prever e responder a estas mudanças.

A bordo são também transportados outros equipamentos, tais como:

  • European Enhanced Exploration Exercise Device Power Cable – este é um cabo de alimentação de substituição para instalação no Dispositivo Europeu de Exercícios de Exploração Melhorada (European Enhanced Exploration Exercise Device).
  • Catalytic Reactor – Componente vital do Sistema de Recuperação e Gestão de Água (Water Recovery and Management System), o reator catalítico oxida compostos orgânicos voláteis das águas residuais removidas pelas unidades de substituição orbital do Separador de Gases e do Leito de Troca Iónica (Gas Separator and Ion Exchange Bed). Esta peça foi lançada para manter o stock de peças sobressalentes em órbita.
  • Universal Pretreat Concentrate Tank – Trata-se de um tanque passivo para fornecer concentrado de pré-tratamento alternativo ao Sistema Universal de Gestão de Resíduos (Universal Waste Management System) e ao Compartimento de Higiene de Resíduos (Waste Hygiene Compartment). Foram transportadas duas unidades para manter este equipamento, em conjunto com os tanques de pré-tratamento russos atualmente em uso. Um adaptador universal para o depósito de concentrado de pré-tratamento acompanhará os depósitos para ligação à mangueira russa.

Outros equipamentos a bordo incluem uma Ultrassonda para substituir uma ferramenta de inspeção ultrassónica desgastada, uma Unidade de Sensor Remoto para repor as peças sobressalentes do sistema de monitorização de vibrações da estação e remendos flexíveis para vedação do casco pressurizado, se necessário. A missão também entregará um cartucho ARMADILLO (AOGA ReMediation, Advanced DeIonization and Limited Life Optimization) atualizado e conjuntos de mangueiras para melhorar o processamento de água para a geração de oxigénio, juntamente com um conjunto de tanque de recarga de nitrogénio para ajudar a manter as reservas de gás da estação.

Quando a Dragon v2 SpX-34 regressar em meados de Junho, trará a bordo um dispositivo de imagem ocular utilizado para monitorizar a saúde dos olhos da tripulação, uma cama de sorvente que filtra os contaminantes residuais do ar da cabine e uma bomba separadora do Compartimento de Resíduos e Higiene. O Habitat Avançado para Plantas (Advanced Plant Habitat), que possibilitou estudos de biologia vegetal de longa duração, também regressará para futura exposição em museu. Um dispositivo de gestão de pressão que recupere o ar do vestíbulo durante a despressurização regressará para reparação e armazenamento como peça sobresselente em terra.

Lançamento

A cerca de dez horas do lançamento procedeu-se à activação eléctrica do foguetão Falcon-9. Tanto o lançador como a sua carga são submetidos a uma série de verificações testes antes do início do abastecimento do querosene RP-1. O Director de Voo consulta os controladores a T-38m, determinando assim se tudo está pronto para o início do abastecimento do lançador. O processo de abastecimento de RP-1 inicia-se a T-35m no primeiro estágio, seguindo-se o início do abastecimento do oxigénio líquido (LOX) na mesma altura. O abastecimento de LOX ao segundo estágio inicia-se a T-16m.

A fase terminal da contagem decrescente inicia-se com os motores a serem condicionados termicamente para o lançamento a T-7m. A T-1m é enviado um comando para o computador de voo para iniciar as verificações pré-lançamento e o sistema de supressão sónica é activado na plataforma de lançamento inundada por milhões de litros de água. Por esta altura os tanques de propelente também são pressurizados. A T-45s o Director de Lançamento da SpaceX verifica se todos os parâmetros estão prontos para a missão, sendo também verificado que o espaço aéreo está pronto para o lançamento. A sequência de ignição é iniciada a T-3s. A T=0s o foguetão abandona a plataforma.

Abandonando a plataforma de lançamento, o Falcon-9 inicia uma série de manobras para se colocar na trajectória de voo correcta.

No seu voo tendo como destino a estação espacial internacional, a cápsula Dragon executa uma série de manobras (ou queimas) que posicionam o veículo progressivamente mais perto da estação antes de executar as manobras de acoplagem finais, seguindo-se a pressurização do vestíbulo, abertura da escotilha de acesso e entrada da tripulação.

Após o seu lançamento (1) e activação orbital (2), a cápsula Dragon executa uma série de queimas de fase (3) até elevar os seus parâmetros orbitais, coincidindo com a estação espacial. Atingindo uma órbita final coelíptica (4), inicia então as operações de proximidade (5) até à acoplagem e posterior pressurização do vestíbulo.

O foguetão Falcon-9

Baptizado em nome da nave Millenium Falcon da saga cinematográfica “Guerra das Estrelas”, o foguetão Falcon-9 v1.1 foi um lançador a dois estágios projectado e fabricado para o transporte seguro e fiável de satélites e do veículo Dragon para a órbita terrestre. Sendo o primeiro foguetão completamente desenvolvido no Século XXI, este lançador foi projectado desde o início para ter a máxima fiabilidade. A sua simples configuração de dois estágios minimiza o número de eventos de separação (staging) e com nove motores no primeiro estágio, pode completar a sua missão em segurança mesmo na possibilidade de perda de um motor.

O Falcon-9 fez história em 2012 quando colocou a cápsula Dragon na órbita correcta para uma manobra de encontro com a estação espacial internacional. Desde então, foram realizadas múltiplas missões para a ISS transportando e recolhendo carga para a NASA. O Falcon-9, bem como a cápsula Dragon, foram desenhados na base do desenvolvimento de um sistema de transporte de astronautas para o espaço.

O foguetão Falcon-9 Upgrade, ou Falcon-9 FT, (a seguir designado simplesmente como “Falcon-9”) representa a mais recente evolução deste lançador. De forma geral, o Falcon-9 tem 68,4 metros de comprimento, 3,7 metros de diâmetro e uma massa de 541.300 kg. O veículo é capaz de colocar uma carga de 13.150 kg numa órbita terrestre baixa ou 4.850 kg numa órbita de transferência geossíncrona.

O primeiro estágio do Falcon-9 está equipado com nove motores Merlin (Merlin-1D) e tanque de liga de alumínio e lítio que contêm oxigénio líquido e querosene RP-1. Após a ignição, um sistema de segurança fixa o veículo na plataforma de lançamento e garante que todos os motores são verificados como estando na força máxima antes de libertar o foguetão para o seu voo. Então, com uma força superior a cinco aviões Boeing 747 em potência máxima, os motores Merlin lançam o foguetão para o espaço. Ao contrário dos aviões, a força de um foguetão vai aumentando com a altitude – o Falcon-9 gera 6.806 kN ao nível do mar, mas atinge 7.426 kN no vácuo espacial. Os motores do primeiro estágio vão sendo aumentados em potência perto do final da queima do estágio para assim limitar a aceleração do veículo à medida que a massa do lançador diminui com a queima do combustível. O tempo total de queima do primeiro estágio é de 162 segundos.

Com os seus nove motores agrupados juntos na configuração ‘octaweb’, o Falcon-9 pode aguentar a falha de até dois motores durante o lançamento e mesmo assim conseguir atingir a órbita terrestre com sucesso. O Falcon-9 é o único lançador na sua classe com esta característica chave.

O motor Merlin vai encontrar as suas raízes aos motores das missões Apollo, nomeadamente o sistema de injecção baseado no motor do módulo lunar. O propelente é alimentado por uma única conduta, com uma turbo bomba de dupla pá que opera num ciclo de gerador a gás. A turbo bomba também fornece o querosene a alta pressão para os actuadores hidráulicos, que depois recicla para a entrada a baixa pressão. Isto elimina a necessidade de um sistema hidráulico separado e significa que não é possível ocorrer uma falha no controlo de vector de força por falta de fluido hidráulico. Uma terceira utilização da turbo bomba é o fornecimento de controlo de rotação ao actuar no escape da turbina de exaustão (no segundo estágio). Combinando-se estas características num só dispositivo aumenta-se assim de forma significativa o nível de fiabilidade do sistema.

O motor é capaz de desenvolver uma força de 654 kN ao nível do mar, 716 kN no vácuo, com um impulso específico de 282 segundos (nível do mar) e 311 segundos (vácuo).

A secção interestágio é uma estrutura compósita que liga o primeiro e o segundo estágio e alberga os sistemas de libertação e separação. O Falcon-9 utiliza um sistema de separação totalmente pneumático para uma separação de baixo impacto e altamente fiável que pode ser testado no solo, ao contrário dos sistemas pirotécnicos utilizados na maior parte dos lançadores.

O segundo estágio é propulsionado por um único motor Merlin de vácuo e coloca a carga a transportar na órbita desejada. O motor do segundo estágio entra em ignição poucos segundos após a separação entre o segundo e o primeiro estágio, e pode ser reiniciado várias vezes para colocar múltiplas cargas em diferentes órbitas. Para máxima fiabilidade, o segundo estágio está equipado com sistemas de ignição redundantes. Tal como o primeiro estágio, o segundo estágio é feito a partir de uma liga de alumínio e lítio.

O motor Merlin de vácuo (Merlin-1D de vácuo) desenvolve uma força de 934 kN e o seu tempo de queima é de 397 segundos.

A carenagem compósita é utilizada para proteger a carga durante a passagem do Falcon-9 pelas camadas mais densas da atmosfera. Quando a missão do Falcon-9 é o lançamento do veículo de carga Dragon, a carenagem não é utilizada, pois a cápsula possui o seu próprio sistema de protecção.

A carenagem tem 13,1 metros de comprimento e 5,2 metros de diâmetro. Fabricada em fibra de carbono, separa-se em duas metades utilizando um sistema de separação de actuadores pneumáticos semelhantes aos que são utilizados para a separação entre o primeiro e o segundo estágio.

A sequência de lançamento para o Falcon-9 é um processo de precisão ditada pela janela de lançamento tendo em conta a posição orbital a ser ocupada pela carga a bordo. Se a janela de lançamento é perdida, a missão é então adiada para a próxima janela de lançamento disponível.

Cerca de quatro horas antes do lançamento, inicia-se o processo de abastecimento – primeiro oxigénio líquido seguindo-se o querosene altamente refinado (RP-1). O vapor observado a sair do lançador durante a contagem decrescente é na realidade oxigénio a ser liberto dos tanques, sendo esta a razão pela qual o abastecimento de oxigénio líquido se mantém até quase ao final da contagem decrescente.

LançamentoVeículo1.º estágioLocal LançamentoData Hora (UTC)CargaRecuperação
2026-085630B1097.8VSFB, SLC-4E19/Abr/26 16:03:09Starlink G17-22OCISLY
2026-087631B1095.7CCSFS, SLC-4021/Abr/26 06:53:25USA-585 (GPS-III SV10)JRTI
2026-088632B1100.5VSFB, SLC-4E23/Abr/26 03:23:09Starlink G17-14OCISLY
2026-094633B1088.15VSFB, SLC-4E26/Abr/26 14:37:09Starlink G17-16OCISLY
2026-097634B1071.33VSFB, SLC-4E30/Abr/26 02:42:49Starlink G1736OCISLY
2026-099635B1069.31CCSFS, SLC-4001/Mai/26 18:06:10Starlink G10-38ASOG
2026-100636B1071.33VSFB, SLC-4E03/Mai/26 07:00CAS500-2 Vários satélitesLZ-4
2026-101637B1081.24VSFB, SLC-4E06/Mai/26 03:59:19Starlink G17-29OCISLY
2026-103638B1103.2VSFB, SLC-4E12/Mai/26 02:13:50NROL-172OCISLY
2026-107639B1096.6CCSFS, SLC-4014/Mai/26 22:05:41Dragon CRS-34LZ-40

  Imagens: SpaceX, Boletim Em Órbita

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