Publicado em 30 de março de 2026 por Rui C. Barbosa

Transporter-16 orbita 119 cargas desde Vandenberg

A empresa norte-americana Space Exploration Technologies Corp. (SpaceX), do oligarca Elon Musk, realizou mais uma missão partilhada colocando em órbita mais de uma centena de satélites.

O lançamento da missão Transporter-16 teve lugar às 1101:59,988UTC a partir do Complexo de Lançamento SLC-4E da Base das Forças Espaciais de Vandenberg, Califórnia, e foi realizado pelo foguetão Falcon 9-622 (B1093.12) cujo primeiro estágio foi recuperado na plataforma flutuante Of Course I Still Love You, no Oceano Pacífico.

Esta foi a décima sexta missão partilhada transportando uma grande variedade de satélites que permitem o lançamento de pequenas cargas a preços mais baixos do que são usualmente praticados no mercado internacional do lançamento de satélites, acomodando dezenas de pequenos satélites que podem ser colocados em diferentes órbitas. As cargas lançadas incluem CubeSats, microsats, picosats, e veículos de transferência orbital que transportam cargas que serão separadas mais tarde.

As cargas desta missão são separadas em duas órbitas, com o primeiro conjunto a ficar colocado numa órbita com uma altitude média de cerca de 520km e o segundo conjunto a ficar colocado numa órbita com uma altitude média de cerca de 590 km.

A carga da missão Transporter-16

Por diversas razões, o manifesto de carga a bordo destas missões não é divulgado, tomando-se conhecimento das cargas apenas quando a SpaceX divulga o denominado press-kit ‘on-line’ da missão. Mesmo assim, muitas vezes estes surgem com erros ou omissões.

Na missão Transporter-16 podemos dividir as cargas dependendo das empresas que foram contratadas para as transportar nos seus veículos de transporte orbital ou que contrataram com a SpaceX para um lugar neste lançamento. Nestas empresas incluem-se a Exolaunch GmbH, Momentus Inc., a ISISpace, a SEOPS Space, D-Orbit e a Maverick Space Systems, além de outras empresas com contratos directos com a SpaceX.

Os satélites manifestados pela Exolaunch GmbH, são: Luna-2, Femto-1, JACK-002, Ermis-1, Ermis-2, Ermis-3, Vireon-2, Cosmo, PeakSat, BRO-19, T.Microsat-2, Vireon-1, DISCO-2, Phobos, Harbinger, INNOSAT UNAMUNO, Hawk-14A, Hawk-14B, Hawk-14C, Flylab-1, Flylab-2, Black Kite-2, Lemur-2 Irina, Lemur-2 Clara, Lemur-2 Julia-Joel, Lemur-2 Deloitte-2, Lemur-2 Deloitte-3, Lemur-2 Polo-11, Lemur-2 Emarchia, Lemur-2 Peggy-2004, Lemur-2 Carrollemo, AE1A, IO-1, TORO3, ICEYE-1, ICEYE-2, ICEYE-3, ICEYE-4, ICEYE-5, ICEYE-6, Vindlér 2.0.1, Vindlér 2.0.2, Vindlér 2.0.3.

Os satélites manifestados pela SEOPS Space, são: DecimalSat-1, HelloWorld-1, Vegafly-1, Hades Spinnyone, Out of the Box, EMISAR, AIGLONSAT-1, TROOP-F3, Lilium-4, AISSAT-4, Ghost Rider, Dream Big 1 a Dream Big 6 (Dream Big Constellation), Unicorn-2R, Unicorn-2S, FossaSat-2E (FO025).

Os satélites manifestados pela Maverick Space Systens, são: TechEdSat-23 (TES-23), SAL-E, OptiSat, Parus-6U1, SM-1.2, GEMS2-AMETHYST, VISTAsat N1-ATLAS.

Os satélites manifestados pela ISISpace, são: SPOQC, SHARJAH-SAT-2.

Os satélites manifestados pela Momentus Inc., são: Vigoride-7 (InspectorSat-1, R5 S10).

Os satélites manifestados pela D-Orbit, são: ION-SCV 019 (ION-SCV Astounding Alexandra, Wayfinder), com os satélites Lusíada-1 (Camões), Lusíada-2 (Bessa), Lusíada-3 (Saramago) e Lusíada-4 (Pessoa).

A bordo ainda se encontravam os satélites ÑuSat-53, ÑuSat-54 (Satellogic), IRIDE-MS1-EAGLET 2-9 a IRIDE-MS1-EAGLET 2-16 (OHB Italia SPA), FGN-100-D3 (Fergani), HotSat-2 (Global Satellite VU Limited), Spacevan-002 (Exotrail), W-Series 6 (Varda Space Industries, Inc.), Gravitas (K2 SPACE), Mimir-1 (OHB Sweden), SERT3 (Muon Space, Inc.), Acadia-10 “Capella-20” (Capella Space).

Lançamento

A cerca de dez horas do lançamento procede-se à activação eléctrica do foguetão Falcon-9. Tanto o lançador como a sua carga são submetidos a uma série de verificações testes antes do início do abastecimento do querosene RP-1. O Director de Voo consulta os controladores a T-38m, determinando assim se tudo está pronto para o início do abastecimento do lançador. O processo de abastecimento de RP-1 inicia-se a T-35m no primeiro estágio, seguindo-se o início do abastecimento do oxigénio líquido (LOX) na mesma altura. O abastecimento de LOX ao segundo estágio inicia-se a T-16m.

A fase terminal da contagem decrescente inicia-se com os motores a serem condicionados termicamente para o lançamento a T-7m. A T-1m é enviado um comando para o computador de voo para iniciar as verificações pré-lançamento e o sistema de supressão sónica é activado na plataforma de lançamento inundada por milhões de litros de água. Por esta altura os tanques de propelente também são pressurizados. A T-45s o Director de Lançamento verifica se todos os parâmetros estão prontos para a missão, sendo também verificado que o espaço aéreo está pronto para o lançamento. A sequência de ignição é iniciada a T-3s. A T=0s o foguetão abandona a plataforma.

Abandonando a plataforma de lançamento, o Falcon-9 inicia uma série de manobras para se colocar na trajectória de voo correcta.

Tempo (hh:mm:ss)Evento
00:01:07Máxima pressão dinâmica (MaxQ)
00:02:27Final da queima do 1.º estágio (MECO)
00:02:30Separação entre o 1.º e o 2.º estágio
00:02:38Início da primeira queima do 2.º estágio (SES-1)
00:03:07Separação da carenagem de protecção
00:06:17Início da queima de reentrada do 1.º estágio
00:06:41Final da queima de reentrada do 1.º estágio
00:08:09Início da queima de aterragem do 1.º estágio
00:08:19Final da primeira queima do 2.º estágio (SECO-1)
00:08:33Aterragem do 1.º estágio
00:51:40Início da segunda queima do 2.º estágio (SES-2)
00:51:44Final da segunda queima do 2.º estágio (SECO-2)
00:54:39Separação LUNA-2
00:54:53Separação FEMTO-1
00:55:08Separação JACK-002
00:55:15Separação DecimalSat-1, HELLOWORLD-1, VegaFly-1 e HADES SpinnyOne
00:55:21Separação ERMIS 1
00:55:28Separação VIREON-2
00:55:38Separação COSMO
00:55:49Separação ERMIS 2
00:56:07Separação TechEdSat-23
00:56:18Separação PeakSat
00:56:31Separação  SAL-E 
00:56:36Separação ERMIS 3 
00:57:00Separação BRO-19 
00:57:05Separação OptiSat 
00:57:11Separação PARUS-6U1 
00:57:34Separação T.MicroSat-2
00:57:41Separação SPOQC
00:57:54Separação VIREON-1 
00:58:04Separação DISCO-2 
00:58:30Separação SHARJAH-SAT-2
00:58:47Separação PHOBOS 
00:58:58Separação SM-1.2 
00:59:39Separação Harbinger 
00:59:44Separação Out of the Box 
01:00:11Separação Ñusat-54
01:00:28Separação EMISAR, AiglonSat-1 e TROOP-F3
01:00:38Separação Lilium-4 
01:00:52Separação IRIDE-MS1-EAGLET-2-14 
01:01:10Separação AISSat-4 
01:01:29Separação IRIDE-MS1-EAGLET-2-9 
01:01:40Separação IRIDE-MS1-EAGLET-2-13 
01:01:55Separação Ghost Rider 
01:02:31Separação IRIDE-MS1-EAGLET-2-10 
01:02:45Separação IRIDE-MS1-EAGLET-2-16 
01:03:17Separação IRIDE-MS1-EAGLET-2-11 
01:03:34Separação Dream Big Constellation 
01:04:00Separação Innosat Unamuno 
01:04:34Separação~IRIDE-MS1-EAGLET-2-12 
01:05:16Separação IRIDE-MS1-EAGLET-2-15 
01:05:56Separação FGN-100-d3
01:06:03Separação Vigoride-7 NOM4DRide
01:06:17Separação HotSat-2
01:06:22Separação ÑuSat-53
01:06:29Separação Hawk-14A 
01:06:58Separação Spacevan-002
01:07:17Separação W-Series 6
01:08:13Separação ION SCV Astounding Alexandra
01:08:25Separação Hawk-14B 
01:10:12Separação Hawk-14C 
01:41:39Início da terceira queima do 2.º estágio (SES-3)
01:41:41Final da terceira queima do 2.º estágio (SECO-3)
02:13:05Início da quarta queima do 2.º estágio (SES-4)
02:13:05Final da quarta queima do 2.º estágio (SECO-4)
02:16:11Separação Gravitas
02:25:51Separação Flylab-2 
02:26:03Separação GEMS2-Amethyst
02:26:08Separação Black Kite-2 
02:26:15Separação LEMUR-2-IRINA 
02:26:21Separação UNICORN-2R e UNICORN-2S
02:26:28Separação Flylab-1 
02:26:34Separação LEMUR-2-CLARA 
02:26:40Separação AE1a 
02:26:51Separação LEMUR-2-JULIA-JOEL 
02:26:57Separação N1-ATLAS 
02:27:03Separação LEMUR-2-DELOITTE-2 
02:27:15Separação Io-1 
02:27:20SeparaçãoTORO3 
02:27:25Separação LEMUR-2-POLO-11 
02:27:38Separação~FOSSASAT-2E (FO025) 
02:27:47Separação Mimir-1
02:27:53Separação LEMUR-2-PEGGY-2004 
02:28:05Separação LEMUR-2-DELOITTE-3 
02:28:17Separação LEMUR-2-EMARCHIA 
02:28:27Separação ICEYE 1 
02:28:43Separação LEMUR-2-CARROLLEMO 
02:28:53Separação ICEYE 3 
02:29:04Separação ICEYE 5 
02:29:29Separação Vindlér 2.0.2 
02:29:35Separação SERT3
02:29:54Separação ICEYE 4 
02:30:01Separação Acadia-10
02:30:19Separação ICEYE 6 
02:30:38Separação Vindlér 2.0.3 
02:31:01Separação ICEYE 2 
02:31:56Separação Vindlér 2.0.1 

 

O foguetão Falcon-9

Baptizado em nome da nave Millenium Falcon da saga cinematográfica “Guerra das Estrelas”, o foguetão Falcon-9 v1.1 foi um lançador a dois estágios projectado e fabricado para o transporte seguro e fiável de satélites e do veículo Dragon para a órbita terrestre. Sendo o primeiro foguetão completamente desenvolvido no Século XXI, este lançador foi projectado desde o início para ter a máxima fiabilidade. A sua simples configuração de dois estágios minimiza o número de eventos de separação (staging) e com nove motores no primeiro estágio, pode completar a sua missão em segurança mesmo na possibilidade de perda de um motor.

O Falcon-9 fez história em 2012 quando colocou a cápsula Dragon na órbita correcta para uma manobra de encontro com a estação espacial internacional. Desde então, foram realizadas múltiplas missões para a ISS transportando e recolhendo carga para a NASA. O Falcon-9, bem como a cápsula Dragon, foram desenhados na base do desenvolvimento de um sistema de transporte de astronautas para o espaço.

O foguetão Falcon-9 Upgrade, ou Falcon-9 FT, (a seguir designado simplesmente como “Falcon-9”) representa a mais recente evolução deste lançador. De forma geral, o Falcon-9 tem 68,4 metros de comprimento, 3,7 metros de diâmetro e uma massa de 541.300 kg. O veículo é capaz de colocar uma carga de 13.150 kg numa órbita terrestre baixa ou 4.850 kg numa órbita de transferência geossíncrona.

O primeiro estágio do Falcon-9 está equipado com nove motores Merlin (Merlin-1D) e tanque de liga de alumínio e lítio que contêm oxigénio líquido e querosene RP-1. Após a ignição, um sistema de segurança fixa o veículo na plataforma de lançamento e garante que todos os motores são verificados como estando na força máxima antes de libertar o foguetão para o seu voo. Então, com uma força superior a cinco aviões Boeing 747 em potência máxima, os motores Merlin lançam o foguetão para o espaço. Ao contrário dos aviões, a força de um foguetão vai aumentando com a altitude – o Falcon-9 gera 6.806 kN ao nível do mar, mas atinge 7.426 kN no vácuo espacial. Os motores do primeiro estágio vão sendo aumentados em potência perto do final da queima do estágio para assim limitar a aceleração do veículo à medida que a massa do lançador diminui com a queima do combustível. O tempo total de queima do primeiro estágio é de 162 segundos.

Com os seus nove motores agrupados juntos na configuração ‘octaweb’, o Falcon-9 pode aguentar a falha de até dois motores durante o lançamento e mesmo assim conseguir atingir a órbita terrestre com sucesso. O Falcon-9 é o único lançador na sua classe com esta característica chave.

O motor Merlin vai encontrar as suas raízes aos motores das missões Apollo, nomeadamente o sistema de injecção baseado no motor do módulo lunar. O propelente é alimentado por uma única conduta, com uma turbo bomba de dupla pá que opera num ciclo de gerador a gás. A turbo bomba também fornece o querosene a alta pressão para os actuadores hidráulicos, que depois recicla para a entrada a baixa pressão. Isto elimina a necessidade de um sistema hidráulico separado e significa que não é possível ocorrer uma falha no controlo de vector de força por falta de fluido hidráulico. Uma terceira utilização da turbo bomba é o fornecimento de controlo de rotação ao actuar no escape da turbina de exaustão (no segundo estágio). Combinando-se estas características num só dispositivo aumenta-se assim de forma significativa o nível de fiabilidade do sistema.

O motor é capaz de desenvolver uma força de 654 kN ao nível do mar, 716 kN no vácuo, com um impulso específico de 282 segundos (nível do mar) e 311 segundos (vácuo).

A secção interestágio é uma estrutura compósita que liga o primeiro e o segundo estágio e alberga os sistemas de libertação e separação. O Falcon-9 utiliza um sistema de separação totalmente pneumático para uma separação de baixo impacto e altamente fiável que pode ser testado no solo, ao contrário dos sistemas pirotécnicos utilizados na maior parte dos lançadores.

O segundo estágio é propulsionado por um único motor Merlin de vácuo e coloca a carga a transportar na órbita desejada. O motor do segundo estágio entra em ignição poucos segundos após a separação entre o segundo e o primeiro estágio, e pode ser reiniciado várias vezes para colocar múltiplas cargas em diferentes órbitas. Para máxima fiabilidade, o segundo estágio está equipado com sistemas de ignição redundantes. Tal como o primeiro estágio, o segundo estágio é feito a partir de uma liga de alumínio e lítio.

O motor Merlin de vácuo (Merlin-1D de vácuo) desenvolve uma força de 934 kN e o seu tempo de queima é de 397 segundos.

A carenagem compósita é utilizada para proteger a carga durante a passagem do Falcon-9 pelas camadas mais densas da atmosfera. Quando a missão do Falcon-9 é o lançamento do veículo de carga Dragon, a carenagem não é utilizada, pois a cápsula possui o seu próprio sistema de protecção.

A carenagem tem 13,1 metros de comprimento e 5,2 metros de diâmetro. Fabricada em fibra de carbono, separa-se em duas metades utilizando um sistema de separação de actuadores pneumáticos semelhantes aos que são utilizados para a separação entre o primeiro e o segundo estágio.

A sequência de lançamento para o Falcon-9 é um processo de precisão ditada pela janela de lançamento tendo em conta a posição orbital a ser ocupada pela carga a bordo. Se a janela de lançamento é perdida, a missão é então adiada para a próxima janela de lançamento disponível.

Cerca de quatro horas antes do lançamento, inicia-se o processo de abastecimento – primeiro oxigénio líquido seguindo-se o querosene altamente refinado (RP-1). O vapor observado a sair do lançador durante a contagem decrescente é na realidade oxigénio a ser liberto dos tanques, sendo esta a razão pela qual o abastecimento de oxigénio líquido se mantém até quase ao final da contagem decrescente.

LançamentoVeículo1.º estágioLocal LançamentoData Hora (UTC)CargaRecuperação
2026-045613B1085.14CCSFS, SLC-4010/Mar/26 04:19:00EchoStar-XXVASOG
2026-049614B1071.32VSFB, SLC-4E13/Mar/26 14:57:59Starlink G17-31OCISLY
2026-050615B1095.6CCSFS, SLC-4014/Mar/26 12:37:10Starlink G10-48JRTI
2026-053616B1088.14VSFB, SLC-4E17/Mar/26 05:19:09Starlink G17-24OCISLY
2026-054617B1090.11CCSFS, SLC-4017/Mar/26 13:27:34Starlink G10-46ASOG
2026-055618B1077.27CCSFS, SLC-4019/Mar/26 14:20:10Starlink G10-33JRTI
2026-057619B1100.4VSFB, SLC-4E20/Mar/26 21:51:49Starlink G17-15OCISLY
2026-059620B1078.27CCSFS, SLC-4022/Mar/26 14:47:00Starlink G10-62ASOG
2026-063621B1081.23VSFB, SLC-4E26/Mar/26 23:03:19Starlink G17-17OCISLY
2026-067622B1093.12VSFB, SLC-4E30/Mar/26 11:01:59,988Transporter-16OCISLY

Imagens: SpaceX, Boletim Em Órbita