
Transportando quatro novos elementos para a tripulação permanente da Estação Espacial Internacional, a missão USCV-13 (Crew-13) foi lançada no dia 1 de Outubro de 2026 a bordo de uma cápsula espacial da empresa norte-americana Space Exploration Technologies Corp..
O lançamento ocorreu às 1510:06TC e foi realizado pelo foguetão Falcon 9-692 (B1101.3) a partir do Complexo de Lançamento SLC-40 do Cabo Canaveral SFS, Florida. O primeiro estágio B1101, na sua 3.ª missão, foi recuperado na Zona de Aterragem LZ-40 no Cabo Canaveral.
A acoplagem com o módulo Harmony está prevista para as 0000UTC do dia 2 de Outubro.



A missão utiliza a cápsula espacial Crew Dragon C213 ‘Grace’ na 13.ª missão operacional do denominado “Commercial Crew Program” e na sua 2.ª missão.
A bordo foram lançados quatro tripulantes, nomeadamente Jessica Andrea Watkins (Comandante, EUA – NASA), Luke Daniel Delaney (Piloto, EUA – NASA), Joshua Peter Kutryk (Especialista de Missão n.º 1, Canadá – CSA) e o cosmonauta Sergey Alexandrovich Teteryatnikov “Сергей Александрович Тетерятников” (Especialista de Missão n.º 2, Rússia – Roscosmos). Esta será a segunda missão espacial para Jessica A. Watkins, sendo o baptismo de voo espacial para os restantes membros da tripulação. Harutyun Harutyunovich Kiviryan serviu como suplente de Sergey A. Teteryatnikov.


Mais sobre esta missão pode ser acedido aqui.
Durante a missão, a tripulação vai ajudar os investigadores a tratar doenças cardíacas e a doença de Parkinson, estudando tecidos derivados de células estaminais humanas que podem contribuir para a melhoria da medicina, da modelação de doenças e dos testes farmacêuticos. Também explorarão a produção agrícola, que é importante para missões espaciais de longa duração, ajudar-nos-ão a compreender melhor as anormalidades do fluxo sanguíneo que observamos no espaço e testarão novos equipamentos médicos de diagnóstico para monitorizar a saúde da tripulação.
As experiências, lideradas pelo Programa de Investigação Humana da NASA, incluem a realização de ecografias dos vasos sanguíneos pelos astronautas para estudar alterações na circulação e a simulação de alunagens para avaliar a desorientação durante as transições gravitacionais, entre outras tarefas. Os resultados ajudarão a NASA a planear estadias prolongadas no espaço e futuras missões de exploração.
Durante a missão a bordo da Estação Espacial Internacional, os astronautas vão apoiar uma série de investigações biomédicas e de desempenho humano, incluindo um novo esforço colaborativo para estudar como o voo espacial afeta o fluxo sanguíneo e a coagulação. A NASA está também a testar as capacidades de pilotagem manual dos membros da tripulação, avaliando métodos para minimizar alterações na visão e no cérebro, recolhendo dados essenciais de saúde para orientar futuras missões e medindo as forças que os astronautas experimentam durante o regresso à Terra para ajudar a melhorar o hardware e os procedimentos de reentrada.
Entre a investigação futura, uma nova colaboração com a ESA (Agência Espacial Europeia), denominada “Hemostasia Venosa“, baseia-se em estudos anteriores sobre o fluxo sanguíneo no espaço, combinando os esforços de investigação das duas agências espaciais. Ao coordenar a recolha de sangue e outros dados fisiológicos, os investigadores podem reduzir a frequência com que os astronautas necessitam de recolha de sangue, ao mesmo tempo que combinam medições analíticas para compreender melhor como a microgravidade afecta a coagulação e a circulação sanguínea.
“No espaço, a ausência de gravidade pode interromper o fluxo sanguíneo normal nas veias dos astronautas”, disse Jason Lytle, um dos principais investigadores do estudo e investigador cardiovascular no Centro Espacial Johnson da NASA, em Houston. “O fluxo sanguíneo irregular e lento pode aumentar o risco de formação de coágulos sanguíneos, uma condição de saúde grave. O estudo sobre a Hemostasia Venosa vai ajudar-nos a compreender porque é que estas alterações podem ocorrer em alguns astronautas, mas não noutros.”
Antes, durante e depois do voo, os astronautas serão submetidos a ressonâncias magnéticas, ecografias da veia jugular, medições da pressão arterial e recolha de sangue para que os investigadores possam monitorizar as alterações no fluxo sanguíneo e na composição do sangue. Os resultados fornecerão informações para medidas preventivas para os membros da tripulação em risco e melhorarão a saúde e a segurança em missões futuras. Os investigadores esperam também descobrir se o conhecimento adquirido com este e outros estudos pode levar a melhores formas de prevenir e tratar os coágulos sanguíneos, tanto no espaço como na Terra.
Um estudo de desempenho, denominado “Pilotagem Manual“, utiliza simulações de alunagens para testar o desempenho dos astronautas em descidas desafiantes após passarem um longo período em microgravidade. Uma vez que os voos espaciais de longa duração podem afectar os sistemas sensoriais, a orientação e o controlo do movimento durante as mudanças entre ambientes gravitacionais, os investigadores estão a avaliar como estas mudanças influenciam o desempenho dos pilotos e se um treino de reciclagem pouco antes da aterragem pode fortalecer as capacidades e a tomada de decisões.
Os investigadores vão também dar continuidade ao “estudo do Complexo B“, que investiga se um suplemento diário de vitaminas do complexo B pode reduzir ou prevenir a Síndrome Neuro-ocular Associada a Voos Espaciais (SANS), uma condição que pode alterar a estrutura ocular dos astronautas durante missões de longa duração. Pesquisas anteriores sugerem que a ingestão diária de vitaminas do complexo B durante os voos espaciais pode ajudar a proteger os astronautas da SANS. Os membros da tripulação participantes serão submetidos a testes de visão e tomarão vitaminas do complexo B antes, durante e depois do voo para avaliar a eficácia do suplemento. O estudo irá também avaliar se as vitaminas do complexo B influenciam o funcionamento dos vasos sanguíneos dos membros da tripulação antes e depois do voo.
Alguns astronautas da Crew-13 participarão também em três estudos adicionais do Programa de Investigação Humana: “Medidas Padrão”, “Risco para Ocupantes de Naves Espaciais” e “Zero T2”. O programa “Medidas Padrão” recolhe dados fisiológicos e comportamentais consistentes do maior número possível de tripulantes para estabelecer parâmetros de referência para a investigação destinada a combater os efeitos adversos. O programa “Risco para Ocupantes de Naves Espaciais” caracteriza as forças que os astronautas experimentam durante a aterragem para ajudar a NASA a melhorar as estratégias e os equipamentos para reduzir os riscos de lesões. O programa “Zero T2” monitoriza as rotinas de exercício de tripulantes seleccionados para comparar os dados de saúde e desempenho entre os astronautas que utilizam a passadeira para exercício aeróbico a bordo da estação e os que não a utilizam. As comparações ajudarão os investigadores a desenvolver planos de exercício para futuras missões Artemis e para o espaço profundo, onde o tamanho da nave espacial pode limitar ou eliminar o uso da passadeira.
“Juntas, estas investigações ajudarão a NASA a compreender melhor como o corpo humano responde aos voos espaciais e se estratégias específicas podem proteger eficazmente a saúde e o desempenho dos astronautas”, disse Michael Stenger, cientista-chefe do Programa de Investigação Humana da NASA Johnson. “O conhecimento adquirido abrirá caminho para os esforços da NASA para enviar humanos em segurança para mais longe no sistema solar, incluindo as missões Artemis à Lua, o trabalho na Base Lunar e futuras expedições a Marte.”
A Crew Dragon
A Crew Dragon é uma classe de cápsula reutilizável desenvolvida pela empresa aeroespacial americana SpaceX, projectada como a versão tripulada da Dragon Cargo.
As cápsulas são projectadas para lançamentos no topo de um Falcon-9 e o seu retorno realiza-se mediante uma amaragem onde é utilizado um sistema de quatro para-quedas.
Em comparação à sua antecessora, a Crew Dragon, inicialmente com o nome de “Dragon Rider”, tem janelas maiores, novos computadores de bordo e sistemas aviónicos, painéis solares redesenhados e uma linha de moldagem modificada. A cápsula irá ser usada em duas variáveis: Crew Dragon 2, uma cápsula certificada para transportar humanos, capaz de transportar até sete astronautas e a Cargo Dragon 2 que vai substituir a sua antecessora.
A Crew Dragon é a única cápsula munida de quatro encaixes laterais para propulsores com dois Super Draco em cada um que servirão de sistema de abortagem durante o lançamento. Ambas as cápsulas estarão ao abrigo das comissões para os programas Commercial Resupply Services 2 (CRS2) e Commercial Crew Development (CCDev).
A Crew Dragon pode ficar acoplada na ISS durante um período de 180 dias extensível até 210 dias. Tem uma capacidade de carga 3.307 kg na mala de carga e sete astronautas na cabine tripulada.
Possui oito motores Super Draco, colocados em modo redundante capazes de produzir 71 kN de impulso. Os tanques de propolente são envolvidos por materiais de compósitos de carbono. Estes mesmos compósitos envolvem os tanques esféricos de titânio para acondicionar o hélio usado para pressurizar os motores e também o combustível e oxidante dos Super Draco.

Tendo por base a experiência anteriormente desenvolvida, a empresa desenvolveu para a protecção térmica um escudo do tipo SPAM Backshell, num material denominado PICA-X (Phenolic Impregnated Carbon Ablator).
A cápsula é controlada por meio de computadores do tipo ‘tablet’, ajustáveis e deslizáveis, onde a tripulação será capaz de os operar. Esta operação será feita pelo piloto e copiloto.
No interior da cabine tripulada, os seus ocupantes encontram um ambiente claro, confortável, composto por assentos de couro baseados em assentos de automóveis desportivos.


O nariz reutilizável protege a cápsula e o adaptador de acoplagem durante a ascensão e reentrada. Usando um mecanismo que permite voltar à sua posição de origem, este nariz poderá ser usado em mais que uma reentrada e futuros lançamentos.
A mala é o terceiro elemento estrutural da cápsula. Esta contem os painéis solares, os radiadores de remoção de calor e oferece uma estabilidade aerodinâmica durante as abortagens de emergência.
Os fatos espaciais da SpaceX
A SpaceX projectou e fabricou os seus fatos espaciais para os astronautas usarem dentro da Crew Dragon enquanto voam de e para a estação espacial internacional, além de garantir a sua segurança enquanto operam em órbita terrestre baixa.
Cada fato espacial é feito sob medida para cada passageiro a bordo do Crew Dragon e foi projectado para ser funcional, leve e proporcionar protecção contra uma potencial despressurização da cápsula. Um único ponto de conexão na coxa do traje conecta os sistemas de suporte de vida, incluindo conexões de ar e energia.
O capacete é fabricado sob medida usando tecnologia de impressão 3D e inclui válvulas integradas, mecanismos para retracção e bloqueio da viseira e microfones dentro da estrutura do capacete.
Lançamento
A cerca de dez horas do lançamento procede-se à activação eléctrica do foguetão Falcon-9. Tanto o lançador como a sua carga são submetidos a uma série de verificações testes antes do início do abastecimento do querosene RP-1. O Director de Voo consulta os controladores a T-45m, determinando assim se tudo está pronto para o início do abastecimento do lançador. A T-42m o braço de acesso da tripulação à cápsula Crew Dragon é removido e a T-37m o sistema de emergência da cápsula Crew Dragon é armado.
O processo de abastecimento de RP-1 inicia-se a T-35m no primeiro estágio, seguindo-se o início do abastecimento do oxigénio líquido (LOX) na mesma altura. O abastecimento de LOX ao segundo estágio inicia-se a T-16m.
A fase terminal da contagem decrescente inicia-se com os motores a serem condicionados termicamente para o lançamento a T-7m, enquanto a T-5m a cápsula Crew Dragon começa a utilizar as suas próprias baterias para o fornecimento de energia. A T-1m é enviado um comando para o computador de voo para iniciar as verificações pré-lançamento e o sistema de supressão sónica é activado na plataforma de lançamento inundada por milhões de litros de água. Por esta altura os tanques de propelente também são pressurizados.
A T-45s o Director de Lançamento verifica se todos os parâmetros estão prontos para a missão, sendo também verificado que o espaço aéreo está pronto para o lançamento. A sequência de ignição é iniciada a T-3s. A T=0s o foguetão abandona a plataforma.
Abandonando a plataforma de lançamento, o Falcon-9 inicia uma série de manobras para se colocar na trajectória de voo correcta. A fase MaxQ, de máxima pressão dinâmica, é atingida a T+1m 12s. É nesta altura que o lançador atinge o ponto mais elevado de ‘stress’ mecânico na sua estrutura.


Acoplagem na ISS
Uma vez em órbita, a tripulação e a equipa da SpaceX irá verificar se a cápsula está a operar como pretendido, testando os sistemas de controlo de ambiente e suporte de vida, bem como os motores de reacção, os sistemas de controlo de temperatura entre outros procedimentos. A Crew Dragon irá realizar uma série de manobras progressivas e faseadas para alinhar-se com a estação espacial para depois acoplar com a mesma. Esta cápsula está projectada para fazer todos estes procedimentos de forma autónoma, sendo apenas preciso a monitorização atenta da tripulação e da equipa da estação espacial, caso seja preciso alguma correcção possam tomar controlo da Crew Dragon a partir daí.

Voo de regresso
Depois da conclusão da missão, a Crew Dragon irá automaticamente separar-se da estação espacial com os astronautas a bordo da cápsula. Depois da separação da zona de carga e realizada a queima de remoção orbital, que dura aproximadamente 12 minutos, a Dragon irá reentrar na atmosfera terrestre. Depois de amarar perto da costa da Florida no Oceano Atlântico, a cápsula e os seus ocupantes irão ser rapidamente resgatados pela embarcação da SpaceX Go Navigator e serão encaminhados para o Cabo Canaveral.

Imagens: NASA, SpaceX, Boletim Em Órbita

