
A empresa italiana Avio SpA colocou em órbita dois satélites para a observação da Terra.
O lançamento teve lugar às 0121:07UTC do dia 15 de Setembro de 2026 e foi realizado pelo foguetão Vega-C (VV30/VC08) a partir da ELV do CSG Kourou, Guiana Francesa. A carga total foi de 1.540 kg (dos quais 1.140 kg correspondem ao satélite Sentinel-3C e 400 kg ao satélite FLEX).
O objectivo da missão foi a colocação dos dois satélites numa órbita sincronizada com o Sol a uma altitude de 810 km e inclinação orbital de 98,6.º. Os dois satélites estavam acomodados num adaptador de carga VESPA+R, desenvolvido a partir do adaptador VESPA+ utilizado por quatro vezes no foguetão Vega.
A carga da missão VV30
A missão VV30 transportou dois satélites para a observação e estudo do nosso planeta, nomeadamente o satélite Sentinel-3C e o satélite FLEX.
A frota de satélites Sentinel foi projectada para obter dados e imagens que são essenciais para o ambicioso programa europeu Copernicus. Esta iniciativa global única – a maior em todo o planeta – é um passo fundamental na forma como gerimos o nosso meio ambiente, compreendemos e lidamos com os efeitos das alterações climáticas, e resguardamos as vidas humanas no dia-a-dia.
Indiscutivelmente, os satélites Sentinel-3 são os mais abrangentes de todas as missões Sentinel. Transportando um variado conjunto de instrumentos, irão proporcionar medições sistemáticas dos oceanos da Terra, do solo, dos gelos e da atmosfera para monitorizar e compreender as dinâmicas globais de larga escala e fornecer informações vitais para as previsões meteorológicas e oceanográficas.
A missão é baseada numa constelação de dois satélites idênticos na mesma órbita, separados em 180º, para uma óptima cobertura e obtenção de dados. Por exemplo, para uma cobertura de observação de 1.270 km, o instrumento de informação oceânica e de cor do solo irá fornecer uma cobertura global a cada dois dias. Os dados são gratuitos e disponíveis para os utilizares em todas as partes do mundo.

Focando-se largamente nos oceanos, os Sentinel-3 irão medem a temperatura, cor e altura da superfície dos mares, bem como a espessura dos gelos marítimos. Estas medições são utilizadas, por exemplo, para monitorizar alterações nos níveis do mar, poluição marítima e produtividade biológica. Sobre o solo, estessatélites mapeiam a forma como os solos são utilizados, proporcionar indícios sobre o estado da vegetação e medir a altura dos rios e lagos. Adicionalmente, os Sentinel-3 monitorizam os fogos florestais. Este largo espectro de dados permite uma administração mais eficaz das políticas ambientais europeias.
Os Sentinel-3 são o resultado de uma relação próxima entre a ESA, a Comissão Europeia, a Eumetsat, a agência espacial francesa – CNES, industria, fornecedores de serviços e utilizadores de dados. Como um exemplo da excelência tecnológica europeia, os satélites Sentinel-3 foram projectados e construídos por um consórcio de cerca de 100 empresas lideradas pela Thales Alenia Space.
O Sentinel-3C tem uma massa de 1.140 kg, incluindo 130 kg de combustível. O satélite tem um comprimento de 2,2 metros, 2,2 metros de largura e 3,9 metros de altura. A bordo transporta os instrumentos: OLCI (Ocean and Land Colour Instrument), cobrindo 21 bandas espectrais (400-1.020 nm) com uma largura de varrimento de 1.270 km; SLSTR (Sea and Land Surface Temperature Radiometer), cobrindo 9 bandas espectrais (550-12.000 nm), um varrimento de dupla observação com larguras de varrimento de 1.420 km (nadir) e 750 km (observação oblíqua); SRAL (Synthetic Aperture Radar Altimeter), banda-Ku (300 metros após processamento SAR) e banda-C; MWR (Microwave Radiometer) com dupla frequência a 23,8 e 36,5 GHz; Laser Retro Reflector (LRR); e o instrumento DORIS (Détermination d’Orbite par Radio-positionnement Intégré par Satellite).

Também designado “Earth Explorer 8“, o satélite FLEX (Fluorescence Explorer) foi desenvolvido pela Thales Alenia Space e transporta uma carga operacional desenvolvida pela Leonardo Space.
O satélite FLEX irá mapear a fluorescência da vegetação para quantificar a actividade fotossintética. A conversão do dióxido de carbono atmosférico e da luz solar em hidratos de carbono ricos em energia através da fotossíntese é um dos processos mais fundamentais da Terra.
As informações do FLEX irão melhorar a nossa compreensão de como o carbono se move entre as plantas e a atmosfera e como a fotossíntese afecta os ciclos do carbono e da água. Além disso, as informações do FLEX proporcionarão uma melhor compreensão da saúde e do stress das plantas. Isto é particularmente relevante dado
que o crescimento da população mundial está a aumentar as exigências sobre a produção de alimentos e de rações para animais. Até à data, não foi possível medir a actividade fotossintética do espaço, mas o inovador espectrómetro de imagem de fluorescência da FLEX observará este brilho ténue, que serve como indicador da fotossíntese.
O satélite FLEX irá orbitar em conjunto com o satélite Sentinel-3C, aproveitando os seus sensores ópticos e térmicos para fornecer um pacote integrado de medições. O seu tempo de vida útil deverá ser de 3,5 anos.
O FLEX contará com o Espectrómetro de Imagem de Fluorescência de alta resolução (FLORIS, Fluorescence Imaging Spectrometer), que irá adquirir dados na gama espectral de 500 a 780 nm. Terá uma amostragem de 0,1 nm nas bandas de oxigénio (759–769 nm e 686–697 nm) e de 0,5 a 2,0 nm nas bandas de bordo vermelho, absorção de clorofila e PRI (Photochemical Reflectance Index).
Lançamento da missão VV30
A campanha de lançamento teve início a 13 de Julho de 2026 com a chegada dos satélites Sentinel-3C e FLEX á Guiana Francesa. Após a chegada os dois satélites foram transportados para as instalações de processamento.
A 28 de Julho dá-se a transferência do estágio P80 para a plataforma de lançamento. Na preparação para o lançamento seguiu-se a integração da secção interestágio entre o primeiro e segundo estágio. Posteriormente, dá-se a integração do estágio Z23 e finalmente a integração do estágio Z9.
O abastecimento do satélite FLEX ocorreu a 13 de Agosto, seguindo-se o abastecimento do Sentinel-3C a 24 de Agosto.
A 28 de Agosto o satélite Sentinel-3C era acoplado ao adaptador de carga e a 1 de Setembro ambos os satélites eram colocados no interior da carenagem de protecção (estas são as operações de encapsulamento, isto é, de colocação do sistema compósito superior – carga e estágio AVUM – no interior da carenagem de protecção).
O sistema compósito é transferida para o Complexo de Lançamento ELV a 5 de Setembro e integrado no lançador Vega-C no dia 7.

A 12 de Setembro ocorre a revisão dos preparativos para o lançamento e os preparativos finais do lançador (testes funcionais do lançador), seguindo-se o ensaio geral do lançamento e a armação do estágio Z23/Z9 e do AVUM.
O início da contagem decrescente final tinha lugar a T-9h 10m (18 de Maio), seguindo-se a activação da Unidade Multi-Funcional a T-6h 0m. A activação do Sistema de Referência Inercial ocorria a T-5h 40m, na mesma altura em que se iniciava a activação do sistema de transmissão de telemetria do foguetão Vega. A Unidade Principal de Segurança do lançador era activada a T-5h 10m.
A remoção dos dispositivos de segurança ocorre a T-4h 50m e a T-4h 40m era activado o computador de bordo e carregado o programa de voo. O alinhamento do Sistema de Referência Inercial e verificações ocorriam a T-4h 30m. O processo de remoção da estrutura móvel de acesso ao lançador iniciava-se a T-3h 15m, sendo um procedimento que tem uma duração de 45 minutos. O alinhamento do Sistema de Referência Inercial e verificações após a remoção da estrutura móvel de acesso ao lançador ocorriam a T-2h 25m. A activação do sistema de transmissão de telemetria após a remoção da estrutura móvel de acesso ao lançador ocorria a T-1h 15m, na mesma altura em que eram activados os transponders e receptores.
Os sistemas do lançador estão prontos para a missão a T-50m e o relatório meteorológico final antes do lançamento é emitido a T-10m. O início da sequência sincronizada de lançamento ocorre a T-4m.
Após abandonar rapidamente a plataforma de lançamento, o foguetão Vega-C inicia um breve voo vertical na fase inicial da ignição dos três estágios iniciais que tem uma duração de cerca de 7 minutos e 20 segundos.

O foguetão Vega-C
O foguetão Vega-C (Vega-Consolidated) representa a primeira evolução do foguetão Vega. Tem um comprimento de 34,8 metros, diâmetro máximo de 3,8 metros e uma massa de 210.000 kg no lançamento, conseguindo colocar uma carga de 2.200 kg numa órbita polar a 700 km de altitude.
Utilizando uma nova variedade de adaptadores de carga, o Vega-C consegue acomodar cargas de diferentes forma e tamanhos, desde vários pequenos satélites com uma massa de 1 kg até um único satélite com uma massa muito superior. Outros desenvolvimentos e melhorias irão alargar as capacidades do Vega-C para incluir operações em órbita e missões de regresso à Terra utilizando o veículo Space Rider da Agência Espacial Europeia.
Os países que participaram no desenvolvimento do Vega-C foram a Áustria, Bélgica, República Checa, França, Alemanha, Irlanda, Itália, Países Baixos, Noruega, Roménia, Espanha, Suécia e Suíça.
O foguetão Vega veio preencher uma lacuna na frota de lançadores da Arianespace. Com o foguetão Vega a empresa de lançamentos europeia fica assim com a capacidade de colocar em órbita pequenos satélites não estando dependente de oportunidades de lançamento nos outros dois foguetões.
História do programa
O desenvolvimento do foguetão Vega (Vettore Europeo di Generazione Avanzata) teve as suas origens no princípio dos anos 90 do Século XX, quando foram levados a cabo estudos para investigar a possibilidade de complementar a família de lançadores Ariane com um veículo lançador de pequena carga utilizando a tecnologia de combustíveis sólidos do Ariane.
O lançador começou como um conceito nacional italiano. Em 1988 a empresa BPD Difesa y Spazio propôs um veículo à agência espacial italiana ASI para substituir o reformado foguetão Scout de fabrico norte-americano por um novo lançador tendo por base o motor Zéfiro desenvolvido pela empresa a partir dos conhecimentos ganhos no desenvolvimento do Ariane. Após cerca de dez anos de actividades de definição e de consolidação, a agência espacial italiana e a industria italiana propuseram o lançador Veja como um projecto europeu tendo por base no seu próprio know-how em propulsão sólida obtido a partir do desenvolvimento e produção dos propulsores laterais de combustível sólido (PAP) do foguetão Ariane-4 e dos componentes dos propulsores laterais (EAP) do foguetão Ariane-5.
Em Abril de 1998 o Conselho da ESA aprovou uma resolução que autorizava as actividades de pré-desenvolvimento. Como resultado foi escolhida a presente configuração com o primeiro estágio que também poderia servir como um propulsor lateral melhorado para o Ariane-5. O Programa Vega foi aprovado pela Comissão do Programa Ariane da ESA a 27 e 28 de Novembro de 2000, e o projecto oficialmente iniciado a 15 de Dezembro desse ano quando sete países subscreveram a declaração.
Inicialmente o foguetão Vega deveria estar operacional a partir de 2007 desde o Centro Espacial de Guiana, na Guiana Francesa, a partir do complexo de lançamento ELA-1 que foi utilizado pelo foguetão Ariane-1 e posteriormente reabilitado. A empresa ELV S.p.A. está encarregue do desenvolvimento e produção do novo foguetão. A produção do foguetão Vega e a sua capacidade de lançamento são adaptadas de tal forma a permitir pelo menos quatro lançamentos por ano.
A produção do foguetão Vega beneficia da reutilização de uma parte já desenvolvida no âmbito de outros programas bem como de novos e avançados subsistemas, componentes e materiais. Graças a esta lógica o alvo de fiabilidade do desenho do lançador foi estabelecido num nível superior de 98% com um nível de confiança de 60%. Tendo em conta os objectivos do desenho e o extensivo programa de qualificação, prevê-se que a fiabilidade de voo do novo lançador irá satisfazer o mercado comercial.
Descrição do sistema de lançamento
A Arianespace oferece um sistema de lançamento completo incluindo o veículo lançador, as instalações de lançamento e os serviços associados.
O lançador consiste primariamente de um sistema compósito inferior composto por três estágios de propulsão sólida e um módulo superior reiniciável, e um sistema compósito superior que inclui uma carenagem de protecção e um sistema de adaptação e dispensador com um sistema de separação.

O foguetão Vega-C tem por base o foguetão Vega. É composto por quatro estágios, sendo três à base de combustível sólido e um quarto estágio (estágio superior) que está equipado com um motor capaz de múltiplas ignições e consome propelentes líquidos. A carga é protegida por uma carenagem.
A carenagem em forma de ogiva do Vega-C tem um diâmetro de 3,3 metros e um comprimento superior a 9 metros. Construída em compósito polimérico de fibra de carbono, esta estrutura protege os satélites das forças acústicas, térmicas e aerodinâmicas durante o lançamento e na ascensão inicial.
O estágio superior AVUM+ (Attitude Vernier Upper Module) garante o controlo de atitude e um preciso posicionamento orbital, sendo projectado para permanência prolongada no espaço. O AVUM+ tem uma massa de propelente de 740 kg e o seu motor principal proporciona uma força média de 2,45 kN. A capacidade de reignição do AVUM+ permite ao Vega-C atingir uma variedade de órbitas para a separação de múltiplas cargas numa única missão. Tipicamente, os propulsores realizam uma, duas ou mais queimas para atingir as órbitas pretendidas. Após a separação das cargas, o estágio realiza uma última queima para se remover da órbita terrestre, realizando assim uma reentrada destrutiva na atmosfera terrestre.
O terceiro estágio Zefiro-9, deriva do foguetão Vega, e queima 10.000 kg de propelente sólido.
O segundo estágio é propulsionado pelo novo motor Zefiro-40 (Z40) que contém cerca de 36.000 kg de propelente sólido, fornecendo uma força média de 1.100 kN.
O motor P120C do primeiro estágio é um dos maiores motores de combustível sólido monolítico de fibra de carbono alguma vez desenvolvido. O seu desenvolvimento foi baseado em novas tecnologias derivadas do motor P80, utilizado no foguetão Vega, para fornecer um aumento significativo na força durante a fase inicial do lançamento. O P120C será também utilizado como propulso lateral para o foguetão Ariane-6, criando assim uma oportunidade para o aumento da produção ao ser utilizado em dois lançadores ao mesmo tempo.
Perfis de missão típicos
Um perfil de voo típico consiste em três fases: Fase I – ascensão dos três primeiros estágios do lançador até a uma trajectória elíptica baixa (perfil sub-orbital); Fase II – transferência do estágio superior e carga para a órbita inicial pela primeira queima do AVUM, voo orbital passivo e manobras orbitais pelo estágio AVUM+ para entrega da carga na órbita final; Fase III – saída de órbita do AVUM+ ou manobras de descarte orbital.
O perfil de voo para os três primeiros estágios será optimizado para cada missão. Este perfil será baseado nos seguintes eventos de voo: a) voo do 1º estágio com a ascensão vertical inicial, manobra de arfagem programada e um voo de incidência zero; b) voo de incidência zero do 2º estágio; c) voo do 3º estágio, separação da carenagem e injecção numa trajectória sub-orbital.
A separação da carenagem de protecção pode ter lugar em alturas diferentes dependendo dos requisitos do fluxo aerotérmico sobre a carga. Tipicamente, a separação tem lugar entre os 200 e os 260 segundos após a ignição devido às limitações do fluxo aerotérmico.
Após a separação do 3.º estágio na trajectória sub-orbital que múltiplas ignições do AVUM+ são utilizadas para transferir a carga para uma grande variedade de órbitas intermédias ou finais, fornecendo as necessárias alterações de plano orbital e elevação orbital. Podem ser fornecidas até cinco reignições do AVUM+ para atingir a órbita final ou para transportar as cargas para diferentes órbitas. Adicionalmente, na primeira queima, o estágio AVUM+ pode fornecer a compensação até 3s erros acumulados durante o voo inicial dos três estágios.
Após a separação da carga e após o adiamento temporal necessário para fornecer uma distância segura entre o AVUM+ e os satélites, o estágio superior executa uma manobra de saída de órbita ou manobra de descarte orbital. Esta manobra é realizada com uma queima adicional do motor principal do AVUM+. Os parâmetros da órbita «segura» ou da reentrada atmosférica serão escolhidos conforme os regulamentos internacionais sobre os detritos espaciais e serão coordenadas com o utilizador durante a análise da missão.

As capacidades de missão do Vega-C
A variedade de adaptadores de carga do Vega-C torna-o num lançador muito flexível e capaz de responder às necessidades do mercado.




O dispensador de carga Small Spacecraft Mission Service (SSMS) irá permitir missões partilhadas dedicadas. O SSMS pode ser configurado para acomodar qualquer combinação de CubeSats com uma massa de 1 kg até pequenos satélites de 400 kg; desde o satélite maior com pequenos companheiros, até múltiplos satélites, ou dezenas de Cubesats individuais.
O adaptador de carga Vespa-C, utilizado para acomodar dois «passageiros» com uma massa acima dos 400 kg, tira partido do grande colume disponível no interior da carenagem do Vega-C.
Por seu lado, o adaptador Vampire será utilizado para grandes cargas singulares com possíveis combinações com pequenas cargas colocadas no dispensador SSMS.
O sistema Space Rider será lançado no Vega-C e irá utilizar as capacidades do estágio superior AVUM+ para fornecer operações em órbita para uma capacidade de retorno de carga.
Os desenvolvimentos a decorrer para um estágio superior Vega Electrical Nudge Upper Stage (Venus) que irá fornecer uma capacidade de transferência orbital a satélites para prolongar o seu mercado com a colocação em órbita de constelações de satélites, missões lunares e serviços em órbita.
Futuras evoluções do sistema de lançamento Vega irão aumentar a sua competividade para lá de 2025 oferecendo uma família de configurações tendo por base vários blocos.
Imagens: ESA, Boletim Em Órbita