
A empresa russa NPK Barl está a construir um novo tipo de satélite comercial de observação da Terra, denominado Triton-O, que deverá ter uma resolução de 0,25 m, equivalente à dos satélites comerciais de detecção remota mais avançados construídos por empresas privadas e actualmente em órbita. Será utilizado, pelo menos em parte, para fins militares.
A maior parte da informação sobre o satélite pode ser encontrada no site da sua operadora, uma empresa chamada RuSpace.
A documentação relativa ao processo de aquisição do projeto foi publicada no site da NPK Barl.
Algumas informações estão também disponíveis no sítio e no canal de Telegram da Alfa-Kapital, uma empresa de investimento russa envolvida no projeto (aqui e aqui).
Contexto organizacional
A NPK Barl foi fundada em 2004 e dedicou-se principalmente à construção de infraestruturas terrestres para satélites de detecção remota. A empresa assumiu um papel de maior destaque no “Projecto 505”, no âmbito do qual a Rússia construiu e lançou o satélite de detecção remota Khayyam para o Irão. Para além de fornecer a infra-estrutura terrestre para o Khayyam, a NPK Barl ficou também responsável pela gestão geral do projecto (embora o satélite tenha sido construído pela Corporação VNIIEM).
A empresa está também a trabalhar no seu próprio satélite de detecção remota, o EOS-O, que terá uma resolução de 0,5 m. Este projecto recebeu financiamento governamental no âmbito da chamada Iniciativa Tecnológica Nacional (NTI), um esforço para estimular o desenvolvimento de sectores industriais de alta tecnologia. A operadora do EOS-O será a empresa MT-LAB.
Ao contrário do EOS-O, o Triton-O é totalmente financiado por capital privado (aparentemente através da empresa de investimento Alfa-Kapital). Embora a RuSpace (a operadora) seja uma entidade independente, está registada no mesmo endereço da NPK Barl e é dirigida por uma pessoa que também pode estar ligada à NPK Barl.
Em baixo vemos as ilustrações dos três satélites (Khayyam, EOS-O e Triton-O) tal como vistos no site da Alfa-Kapital.

Projecto de satélite
A massa do Triton-O é de 770 kg e os satélites podem ser lançados aos pares utilizando o foguetão Soyuz-2 com um estágio superior Fregat. Um dos documentos de aquisição indica uma altitude de operação de “até 600 km” com uma vida útil prevista de cinco anos. A carga útil opera na parte visível e infravermelha próxima do espectro eletromagnético e pode fornecer imagens com uma resolução máxima de 0,25 m. A largura da faixa de varrimento é
de 10,5 km ou 53 km e a velocidade de transmissão de imagens é de 1,6 Gbit/s. A carga útil é fornecida pela OAO Peleng, uma empresa óptica sediada em Minsk (Bielorrússia) que também forneceu câmaras para outros satélites construídos pela Rússia, incluindo o Khayyam.
O site da RuSpace apresenta uma animação do Triton-O, mostrando o satélite de vários ângulos. O design é um pouco diferente do que se vê no site da Alfa-Kapital.
Objectivos
O site da RuSpace lista oito áreas em que as imagens podem ser utilizadas, sendo a primeira a segurança nacional, mais concretamente “monitorização e análise de dados em zonas de conflito e regiões fronteiriças”. As outras são o planeamento urbano, a monitorização de situações de emergência, a agricultura, a silvicultura, a construção civil, a indústria mineira e a cartografia.
Provavelmente não é coincidência que a segurança nacional seja listada como o primeiro objectivo, uma vez que a alta resolução oferecida pelos satélites é tipicamente necessária para fins militares e provavelmente iguala ou supera a de muitos satélites de reconhecimento. Como se observa no canal Telegram da Alfa-Kapital, “os riscos geopolíticos que geralmente têm um efeito negativo na economia, neste caso, podem aumentar a procura e o interesse dos futuros clientes”.
Assim, parece que os principais clientes das imagens de alta resolução do Triton-O serão aquilo a que a Rússia chama as suas “agências de segurança”, que incluem o Ministério da Defesa e o FSB. Um precedente para tal é o Stilsat-1, um satélite comercial de imagens operado pela empresa russa Stilspace, mas construído e lançado pela China. Com uma resolução de 0,5 m, está a ser utilizado principalmente para apoiar o esforço de guerra da Rússia na Ucrânia.
Um segundo satélite da série deverá ser lançado a partir de Vostochny em Setembro (provavelmente com o nome KOEN). Ao contrário do Stilsat-1, terá uma plataforma construída na Rússia, mas a carga útil continuará a ser chinesa.
A utilização de satélites comerciais de imagens para fins de defesa não é exclusiva da Rússia. O Gabinete Nacional de Reconhecimento dos Estados Unidos encomenda imagens a fornecedores comerciais para complementar as imagens captadas pelos satélites espiões governamentais. No caso russo, os satélites comerciais também podem compensar, pelo menos em parte, os longos atrasos nos projectos de satélites espiões financiados pelo governo, como o Razdan e o Razbeg.
Uma característica singular do projeto Triton-O é que os clientes podem adquirir equipamentos terrestres e receber imagens dos próprios satélites. Podem alugar tempo de observação nos satélites e transmitir imagens em tempo quase real. Isto, obviamente, é muito útil para potenciais utilizadores militares.
O Triton-O está entre os poucos satélites comerciais com uma resolução oficialmente anunciada de 0,25 m. Outros satélites atualmente em órbita são o SuperView Neo-1 03 e 0.4 (China), o SpaceEye-T (Coreia do Sul) e o Cartosat-3 (Índia). Logo atrás destes, estão vários satélites com uma resolução de 0,30 m, como o WorldView-3 e 4, o WorldView Legion 1-6 (EUA) e o Pléiades-Neo 3-4 (França).
Estado do projecto
Conforme consta nos documentos de concurso no site da NPK Barl, o projecto teve oficialmente início a 10 de Junho de 2025, com a assinatura de um contrato com a NPK Barl por uma organização não identificada. Uma reunião crucial sobre o projecto foi realizada em Dezembro de 2025, com a presença de representantes da indústria espacial, investidores e potenciais clientes. Nessa reunião, concluiu-se que a documentação de projecto dos satélites estava em conformidade com as especificações técnicas e foi dada a autorização para prosseguir os trabalhos.
O plano para 2026 era construir modelos dinâmicos e térmicos do satélite e iniciar a construção dos equipamentos homologados para voo. A NPK Barl planeia reequipar as suas instalações de montagem de satélites existentes, no norte de Moscovo, para viabilizar a produção dos satélites. A montagem dos satélites deverá demorar 2,5 anos, sendo 1,5 anos necessários para a construção da carga útil óptica (sendo necessários seis meses para o polimento dos espelhos). A plataforma do satélite herdará muitos sistemas utilizados nos satélites anteriores. Numa atualização publicada no seu canal de Telegram em março, a Alfa-Kapital afirmou que “não há dúvidas” de que os satélites serão construídos. Todas as peças necessárias foram encomendadas e a maioria já foi paga. O primeiro lançamento está previsto para 2028.
Texto de Bart Hendricks (traduzido e publicado com autorização do autor)