
O dia 13 de Março de 2026 assinala o 40.º aniversário do lançamento da missão espacial tripulada Soyuz T-15. Esta foi a primeira missão espacial a visitar duas estações espaciais: a estação espacial Mir, na altura recentemente colocada em órbita, e a estação espacial Salyut-7, já em fim de vida.
Com a estação modular Mir, a União Soviética iria manter a sua presença constante em órbita.
Uma nova era
A 25 de Novembro de 1985 são nomeadas duas novas tripulações que teriam como função activar a nova estação espacial e finalizar os trabalhos na estação Salyut-7. A tripulação principal é constituída pelos cosmonautas Leonid Denisovich Kizim e Vladimir Alexeievich Solovyov, enquanto que a tripulação suplente é composta pelos cosmonautas Alexander Stepanovich Viktorenko e Alexander Pavlovich Alexandrov. O cosmonauta Anatoli Yakovlevich Solovyov faz parte de uma tripulação de reserva.
A data de Setembro de 1984 é indicada como a possível data de formação do grupo de cosmonautas para a primeira missão à nova estação espacial Mir. Este grupo é constituído por Alexander Alexandrovich Serebrov, Yuri Vasilievich Malyshev e Musa Khiramanovich Manarov. Em Setembro de 1985 são nomeadas as seguintes tripulaçõespara a primeira missão de longa duração (EO-1) à estação espacial Mir: Vladimir Georgievich Titov e Alexander Alexandrovich Serebrov (tripulação principal), Yuri Viktorovich Romanenko e Alexander Ivanovich Laveikhin (tripulação suplente). Devido à necessidade de se proceder a uma expedição suplementar à Salyut-7, estas tripulações são transferidas para a missão EO-2 à estação espacial Mir, sendo então nomeadas novas tripulações a 25 de Novembro de 1985.
O lançamento da estação espacial Mir (DOS 17KS-12701) teve lugar às 2128:23,006UTC do dia 19 de Fevereiro de 1986, sendo efectuado pelo foguetão 8K82K Proton-K (337-01) a partir da Plataforma PU-39 do Complexo LC200 do Cosmódromo NIIP-5 Baikonur, tendo colocado a Mir numa órbita inicial com um perigeu a 172 km e apogeu a 301 km. Posteriormente a estação alcançou uma órbita operacional a 6 de Março com um perigeu a 387 km, apogeu a 395 km e uma inclinação orbital de 51,6.º em relação ao equador terrestre.
A primeira tripulação a visitar a Mir foi lançada às 1233:08.879UTC do dia 13 de Março. A cápsula Soyuz 7K-ST nº 21L foi colocada numa órbita inicial com um perigeu a 193 km e apogeu a 238 km de altitude. O lançamento foi levado a cabo pelo foguetão 11A511U2 Soyuz-U2 (B15000-012) a partir do Complexo de Lançamento LC1/1. Após entrar em órbita terrestre o veículo recebeu a designação Soyuz T-15 (16643 1986-022A).

A bordo seguiam os cosmonautas Leonid Denisovich Kizim e Vladimir Alexeievich Solovyov que tinham como nome de código “Mayak”. A tripulação suplente era composta pelos cosmonautas Alexander Stepanovich Viktorenko; Alexander Pavlovich Alexandrov.
A Soyuz T-15 acoplou com o porto frontal da Mir às 1338UTC do dia 15 de Março quando os dois veículos se encontravam numa órbita com um perigeu a 332 km e apogeu a 339 km de altitude. Os dois homens permaneceram na estação por várias semanas realizando estudos e experiências científicas e tecnológicas. A 17 de Abril a Mir levava a cabo uma manobra para se aproximar da Salyut-7 que na altura se encontrava a mais de 4.000 km de distância. Uma manobra semelhante seria realizada a 4 de Maio. Às 1212UTC do dia 5 de Maio a Soyuz T-15 separava-se da Mir (que se encontrava numa órbita com um perigeu a 310 km e apogeu a 345 km de altitude) e iniciava a primeira viagem entre duas estações espaciais, acoplando com a Salyut-7 às 1657UTC do dia 6 de Maio quando os dois veículos se encontravam numa órbita com um perigeu a 335 km e apogeu a 343 km de altitude.
Após a acoplagem os dois homens começaram por reactivar os sistemas da Salyut-7, verificando também o seu estado geral. Umas das tarefas principais que Kizim e V. Solovyov teriam de levar a cabo na Salyut-7 seriam a realização de duas actividades extraveículares para finalizar o programa de experiências da tripulação anterior. A primeira destas actividades extraveículares teve início às 0443UTC do dia 28 de Maio. Kizim (envergando o fato extraveícular Orlan-D n.º 10) e V. Solovyov (envergando o fato extraveícular Orlan-D n.º 8) removeram e armazenaram no interior do compartimento de transferência da estação dispositivos utilizados para expor os materiais às condições espaciais e o colector fanco-soviético de micrometeoritos que havia sido colocado no exterior da Salyut-7 em Agosto de 1985. Os dispositivos de exposição incluíam o dispositivo Spiral, para o estudo dos efeitos das condições espaciais sobre os cabos eléctricos; o dispositivo Istok, que procurou estudar as alterações nos sistemas de conexão por rosca (porcas e parafusos) provocadas pela exposição espacial; o dispositivo Resurs, que estudou os efeitos espaciais em diversos materiais; e o dispositivo Meduza, que estudou os efeitos espaciais nos biopolímeros.
Os dois cosmonautas montaram o cilindro URS com um peso de 150 kg na fuselagem da estação e junto à escotilha de acesso ao exterior. Sobre este cilindro foi montada uma estrutura metálica com um peso de 20 kg e um comprimento de 12 metros a 15 metros utilizando dobradiças e molas. O URS foi desenhado e construído pelo Instituto Paton de Soldagem Eléctrica localizado em Kiev, que já anteriormente havia desenvolvido o dispositivo de soldagem URI utilizado por Svetlana Savitskaya na sua actividade extraveícular. Ao contrário da estrutura EASE e ACCESS montada pelos astronautas americanos na missão STS-61B pelo vaivém espacial OV-104 Atlantis, o URI era uma estrutura desdobrável. O comprimento do URS poderia ser aumentado até mais de 1.000 metros ao se adicionar mais componentes. O cosmonauta Kizim operou o sistema de comandos que fez desdobrar a estrutura e posteriormente percorreu metade do seu comprimento achando-a resistente e com oscilações de alguns centímetros.
O cosmonauta Leonid Kizim ajusta a viseira solar do seu capacete durante a segunda saída para o espaço levada a cabo desde a Salyut-7 na missão Soyuz T-15. Imagem: Arquivo fotográfico do autor
No topo do URS estava colocado o dispositivo Fon fabricado pelo Instituto Politécnico de Leningrado. Este dispositivo, com um peso de 3 kg, teve como função analisar o ambiente espacial em torno da Salyut-7.
Os cosmonautas procederam também à montagem do sistema de comunicações utilizando luz visível BOSS, durante um trabalho que foi televisionado para a televisão soviética. Esta actividade extraveícular terminou às 0833UTC após permanecerem 3 horas 50 minutos no exterior.
A segunda actividade extraveícular teve início às 0457UTC do dia 31 de Maio. Os dois cosmonautas começaram por estender a estrutura URS e posteriormente utilizaram o sistema BOSS para transmitirem dados sobre a estabilidade da estrutura a partir de instrumentos colocados no topo do URS. Estes instrumentos incluíam um pequeno sismógrafo construído pelo Instituto de Pesquisa Científica e Geofísica para detectar vibrações de baixa frequência no qual uma câmara detectava vibrações de alta-frequência ao filmar os movimentos de uma pequena luz cor de laranja colocada no URS. Posteriormente Kizim e V. Solovyov fizeram com que a estrutura se torna-se mais rígida ao soldarem algumas partes desta com o dispositivo URI. Após desmantelaram a estrutura, os dois cosmonautas estudaram as reacções de uma liga de alumínio e magnésio às cargas estruturais num ambiente espacial. No final da actividade extraveícular, os dois cosmonautas recolheram uma amostra de células solares que havia sido deixada no exterior da Salyut-7 pelos cosmonautas Savinyhk e Dzhanibekov em Agosto de 1985.
Os dois homens regressaram ao interior da Salyut-7 às 0937UTC após uma actividade extraveícular com uma duração de 4 horas e 40 minutos.
Nos restantes dias da sua permanência na Salyut-7 os dois homens removeram 20 instrumentos com uma massa total de 400 kg e colocaram-nos a bordo da Soyuz T-15. Às 1458UTC do dia 25 de Junho a Soyuz T-15 separa-se da Salyut-7 e inicia a viagem de regresso à Mir com a qual acopla às 1946UTC do dia 26 de Junho.
A 17 de Agosto os controladores soviéticos iniciam uma série de manobras utilizando os motores do Cosmos 1686 para elevar a órbita da Salyut-7. Encontrando-se numa órbita com um perigeu a 331 km e apogeu a 333 km de altitude, a estação fica colocada numa órbita circular a 475 km de altitude. Nesta fase existiam planos para uma posterior visita à Salyut-7 mas tal nunca vem a acontecer devido à situação deteriorante económica da União Soviética. Os efeitos da atmosfera rarefeita sobre a órbita da estação vão aumentando com o passar dos anos e a sua altitude orbital vai diminuindo. Finalmente às 0325UTC do dia 7 de Fevereiro de 1991 a estação reentra na atmosfera terrestre. Tanto a Salyut-7 como o Cosmos 1686 são destruídos pela fricção atmosférica mas alguns destroços atingem a superfície terrestre caindo na Argentina e no Chile.
Bibiografia:
– “Soyuz – A Universal Spacecraft”; Rex D. Hall, David J. Shayler – Springer-Praxis, 2003
– “Almanac of Soviet Manned Space Flight”; Dennis Newkirk – Gulf Publishing Company, 1990
– “Disasters and Accidentes in Manned Space Flight”; David J. Shayler – Springer-Praxis, 2000
– “The Soviet Cosmonaut Team”; Gordon R. Cooper – GBH Publications, 1986 / 1990
Fontes na Internet:
– Zarya
– Boletim Em Órbita



