
A empresa norte-americana RocketLab USA colocou em órbita um satélite militar norte-americano num lançamento não anunciado e que surgiu quase de surpresa para os analistas espaciais.
O lançamento teve lugar às 1020UTC do dia 19 de Junho de 2026 e foi realizado pelo foguetão Electron/Photon (F90) a partir do Complexo de Lançamento LC-1 do Centro de Lançamentos Espaciais de Onenui, Península de Máhia, Nova Zelândia.
A missão Victus Haze
A missão VICTUS HAZE PUMA pode ser traçada a Abril de 2024 quando as empresas Rocket Lab e a True Anomaly foram selecionados para uma missão de “resposta tática” da Força Espacial dos Estados Unidos.
Na altura, a Rocket Lab recebeu um contrato de 32 milhões de dólares e a True Anomaly, de 30 milhões de dólares, para a missão Victus Haze, sendo esta uma missão de demonstração destinada a testar e melhorar as capacidades militares de rápida implantação de satélites em resposta a ameaças no espaço, nomeadamente, a demonstração das capacidades espaciais de resposta rápida (prontidão para lançamento em 24 horas). Então, o objectivo da missão Victus Haze foi estabelecido como o lançamento de um satélite de observação para inspecionar um objecto suspeito em órbita.
Com este contrato, a Rocket Lab teve como missão conceber, construir, lançar e operar uma nave espacial capaz de realizar manobras de encontro e proximidade. Assim que o exercício começar, a Rocket Lab receberá a notificação para lançar a nave espacial para uma órbita alvo a bordo do foguetão Electron da empresa, para quem em órbita realize actividades de proximidade e manobras com o satélite Jackal da True Anomaly.
A 24 de Fevereiro de 2025, a Rocket Lab National Security LLC, uma subsidiária integral da Rocket Lab USA, Inc., anunciava a conclusão com sucesso da sua Revisão Crítica de Projeto (CDR, Critical Design Review) para a missão Victus Haze.
A 6 de Agosto, a Rocket Lab anunciava que havia concluído a etapa de integração do ssatélite para a missão Victus Haze, sendo este construído e integrado em apenas 15 meses, desde o contrato até à sua conclusão (design, construção e integração da nave espacial; software de voo e de solo; lançamento e licenciamento; e operações em órbita).
O anuncio da Rocket Lab National Security LLC referia a conclusão com sucesso da Revisão de Integração de Sistemas (SIR, Systems Integration Review) para a missão Victus Haze, parte do programa Tactically Responsive Space (TacRS) do Comando de Sistemas Espaciais (SSC, Space Systems Command), liderado pela Space Safari, em parceria com a Unidade de Inovação de Defesa (DIU, Defense Innovation Unit).
A SIR foi concluída em Maio e representou um marco crítico do programa, confirmando que todos os componentes, sistemas e software do satélite estavam prontos para a integração e os testes finais. Este marco seguiu-se à bem-sucedida Revisão Crítica de Projecto realizada pela Rocket Lab no início do ano, que validou o projecto da missão e abriu caminho à produção. Após a SIR, a Rocket Lab concluiu a integração do satélite, e o veículo entrava agora na fase final de testes apenas 15 meses após a assinatura do contrato, o que demonstra a rapidez e eficiência da empresa.
Prevista para ser lançada em 2025, a missão sofreria atrasos devido aos problemas encontrados com o foguetão Alpha da Firefly em Abril de 2025. Segundo o tenente-general Philip Garrant, chefe do Comando de Sistemas Espaciais, referindo-se à missão Victus Haze a 24 de Setembro, “a True Anomaly e a Rocket Lab deveriam lançar as suas missões Victus Haze este ano, mas a Força Espacial adiou o lançamento da True Anomaly devido à falha de um lançamento separado realizado pela Firefly, o sexto voo do foguetão Alpha.”
A 10 de Dezembro, era anunciado o adiamento para 2026 da missão Victus Haze. A A Força Espacial dos Estados Unidos indicava as razão do adiamento devido a um dos seus fornecedores de lançamento continuar a recuperar de uma anomalia num foguetão ocorrida no início deste ano.
No dia 17 de Dezembro, o governo neozelandês emitia a autorização de lançamento do satélite “Puma”, parte da missão Victus Haze.
Entretanto, e devido aos problemas com o lançador Alpha, o satélite Jackal-0004 seria colocado em órbita pela SpaceX a 3 de Maio de 2026.
A 19 de Junho surgiam os avisos NOTAM relativos ao lançamento do satélite Puma a partir da Nova Zelândia, com os avisos para a Marinha e a Força Aérea s serem publicados apenas cerca de 10 horas antes da abertura da janela de lançamento, o que estava de acordo com o prazo de “convocatória de 24 horas” exigido pela Força Espacial dos Estados Unidos.
Com o lançamento a ocorrer às 1020UTC, sem qualquer aviso por parte da Rocket Lab, a órbita do Jackal-004 passou exactamente sobre a Nova Zelândia por volta das 1030UTC. Horas mais tarde, o objeto 69646 (2026-142A) era catalogado numa órbita com um perigeu a 347 km, apogeu a 461km, inclinação orbital de 97,45° e período orbital de 92,64 minutos.
Segundo Jonathan McDowell, o satélite Puma passaria a cerca de 100 km do Jackal-0004 cerca das 1751UTC do dia 19 de Junho.
O foguetão Electron/Photon
O Electron é um lançador a três estágios com um comprimento de 18 metros e um diâmetro de 1,2 metros. Tem uma massa de 13.000 kg no lançamento e é capaz de colocar em órbita terrestre baixa uma carga de 225 kg, sendo a sua carga nominal de 200 kg (a 500 km de altitude). Devido ao seu desenho e fabrico (fibra de carbono compósito e estrutura monocoque), o Electron é elaborado com altos níveis de automatização.
O lançador tira partido de materiais compósitos na sua fuselagem, tendo uma estrutura forte e super leve. Da mesma forma, os tanques de propelente são fabricados em materiais compósitos.
A sua versão suborbital – designada “HASTE” – utiliza a mesma estrutura de compósito de carbono e motores Rutherford impressos em 3D que o Electron, mas possui um terceiro estágio modificado para o lançamento de carga útil suborbital, uma capacidade de carga útil maior, de até 700 kg, e opções de carenagens personalizadas para acomodar cargas úteis maiores. O HASTE pode implementar tecnologias a velocidades superiores a 7,5 km por segundo para testar cargas úteis de respiração atmosférica, planagem e balísticas, bem como tecnologias para reentrada na atmosfera terrestre a partir do espaço.

O primeiro estágio está equipado com nove motores Rutherford com uma capacidade de 162 kN, com um impulso específico de 311 s. O motor Rutherford consome querosene e oxigénio líquido, utilizando componentes impressos em 3D.
O motor Rutherford é um motor topo de gama que se alimenta de querosene e oxigénio líquido, sendo especificamente projectado para o foguetão Electron utilizando um ciclo de propulsão inteiramente novo. Uma característica única deste motor são as turbinas eléctricas de alto desempenho que reduzem a sua massa, substituindo assim ‘hardware’ por ‘software’. O motor Rutherford é o primeiro motor do seu tipo que utiliza impressão 3D nos seus componentes principais. Estas características são únicas no mundo para um motor de propelentes líquidos de alto desempenho alimentados por turbobombas eléctricas. O seu desenho orientado para a produção permitem que o Electron seja construído e os satélites lançados com uma frequência sem precedentes.
O segundo estágio do lançador é propulsionado por um motor derivado do motor Rutherford melhorado para um excelente desempenho em condições de vácuo. Consegue desenvolver 22 kN de força e um impulso específico de 343 s.
A sua carenagem tem um comprimento de 2,5 metros com um sistema de separação pneumático e por molas.
O estágio Photon é a versão melhorada do estágio superior Curie. is the upgraded version of Rocket Lab’s kick stage. O estágio está equipado com sistemas de energia, propulsão e comunicação para enviar cargas úteis para a órbita terrestre baixa.
A tabela seguinte mostra os últimos dez lançamentos realizados por foguetões Electron (incluí lançamentos suborbitais).
| Lançamento | Veículo Lançador | Local Lançamento Missão | Data e Hora de Lançamento (UTC) | Carga |
| 2026-019 | F81 | Onenui (Máhia), LC-1A “Bridging The Swarm” | 30/Jan/26 01:21:39 | NeonSat-1A |
| – | F82 | MARS Wallops Isl, LA-0C (LC-2) “That’s Not A Knife” | 28/Fev/26 00:00 | DIU HyCAT DART-AE |
| 2026-043 | F83 | Onenui (Máhia), LC-1B “Insight at Speed is a Friend Indeed” | 05/Mar/26 23:53 | BlackSky Global 34 |
| 2026-056 | F84 | Onenui (Máhia), LC-1B “Eight Days A Week” | 20/Mar/26 18:10 | StriX-6 |
| 2026-065 | F85 | Onenui (Máhia), LC-1A “Daughter Of The Stars” | 28/Mar/26 09:14 | Celeste IOD-1 Celeste IOD-2 |
| – | F86 | MARS Wallops Isl, LA-0C (LC-2) “Bubbles” | 22/Abr/26 04:36 | BUBBLES |
| 2026-089 | F87 | Onenui (Máhia), LC-1A “Kakushin Rising” | 23/Abr/26 03:09 | MAGNARO-II KOSEN-2R WASEDSA-SAT-ZERO II FSI-SAT2 Origamisat-2 Mono-Kiko ARICA-2 PRELUDE |
| 2026-112 | F88 | Onenui (Máhia), LC-1B “Viva La StriX” | 22/Mai/26 09:33 | StriX-7 |
| 2026-130 | F89 | MARS Wallops Isl, LA-0C (LC-2) “Curveball” | 11/Jun/26 08:00 | Curveball |
| 2026-142 | F90 | Onenui (Máhia), LC-1B “VICTUS HAZE PUMA” | 19/Jun/26 10:20 | Puma |
O Complexo de Lançamento LC-1 localizado na Península de Máhia, entre Napier e Gisborne, na costa Este de Ilha do Norte da Nova Zelândia. Este é o primeiro complexo orbital na Nova Zelândia e o primeiro complexo, a nível mundial, operado de forma privada.
Equipado com duas plataformas de lançamento, a localização remota do LC-1, e de forma particular o seu baixo volume de tráfego marítimo e aéreo, é um factor-chave que permite um acesso sem precedentes ao espaço. A posição geográfica deste local permite que seja possível a uma grande gama de azimutes de lançamento – os satélites lançados desde Máhia podem ser colocados em órbitas com uma grande variedade de inclinações para assim proporcionar serviços em muitas áreas em torno do globo.
Imagens: RocketLab