A Ciência na Artemis-II

A missão Artemis-II será o regresso tripulado à órbita lunar pela primeira vez desde Dezembro de 1972. Para lá do que poderá ser um óbvio avanço na exploração espacial, a missão irá realizar um leque variado de experiências científicas e tecnológicas que irão permitir avanços futuros na exploração lunar e na melhoria da vida no nosso planeta.

Durante a missão, os astronautas da Artemis-II vão actuar como cientistas e sujeitos de investigação, participando em cinco estudos que exploram a forma como as viagens espaciais de longa duração afectam o corpo, a mente e o comportamento humanos. Estas experiências são essenciais para manter a saúde dos astronautas em missões mais longas e para o desenvolvimento de tecnologias, protocolos e medidas preventivas.

A experiência ARCHeR (Artemis Research for Crew Health and Readiness) é um estudo avançado que irá monitorizar os padrões de sono, os níveis de stress, o desempenho cognitivo e a dinâmica de trabalho em equipa de astronautas usando pulseiras vestíveis.

Estes dispositivos recolhem dados fisiológicos e comportamentais em tempo real, ajudando os investigadores a compreender como o isolamento, o confinamento e o ambiente único do espaço profundo afectam os membros da tripulação. Ao contrário das missões em órbita terrestre baixa, as missões no espaço profundo envolvem durações mais longas e maiores factores de setress psicológicos, tornando esta investigação vital para optimizar o desempenho humano em futuras explorações.

Os voos espaciais de longa duração podem alterar o sistema imunitário, aumentando potencialmente a suscetibilidade a doenças. O estudo de Biomarcadores Imunológicos vai investigar estas alterações analisando amostras de sangue recolhidas antes e depois da missão, e amostras de saliva recolhidas durante a missão.

No espaço, os astronautas recolhem saliva usando papel especial em pequenos cadernos de bolso para preservar a saliva húmida, uma vez que a refrigeração e outros equipamentos não estarão disponíveis a bordo. Estas amostras ajudam os cientistas a identificar biomarcadores que sinalizam alterações no sistema imunitário devido ao aumento do stress causado pela radiação, isolamento e distância da Terra, contribuindo para o desenvolvimento de contramedidas para manter os astronautas saudáveis. Vão também examinar se os vírus que permanecem latentes são reativados no espaço, como já foi observado na ISS com vírus que podem causar varicela e herpes-zóster.

A experiência AVATAR (A Virtual Astronaut Tissue Analog Response) utiliza a tecnologia de órgãos em chips, com dimensões aproximadas às de uma pen drive, um método revolucionário que imita a função do tecido humano à escala microscópica. Ao incorporarem células derivadas de doações de sangue pré-voo fornecidas pelos tripulantes nestes chips, os investigadores conseguem simular como fatores de stress do espaço profundo, como a microgravidade e a radiação extrema, afectam os órgãos humanos.

A medula óssea desempenha um papel vital no sistema imunitário e é particularmente sensível à radiação, razão pela qual os cientistas a escolheram para este estudo. Esta abordagem permite estudos detalhados e controlados das respostas dos tecidos sem a necessidade de procedimentos invasivos, abrindo caminho para a medicina personalizada no espaço. De facto, o AVATAR pode contribuir para o desenvolvimento de medidas que garantam a saúde da tripulação em futuras missões espaciais de longa duração, incluindo a personalização de kits médicos para cada astronauta. Para as pessoas na Terra, isto pode levar a avanços nos tratamentos individualizados para doenças como o cancro.

Desde 2018, tem-se vindo a recolher dados dos tripulantes participantes antes, durante e depois das missões a bordo da ISS – e a Artemis II marcará a primeira vez que astronautas no espaço profundo participarão no registo de medições standard. O objectivo é construir um panorama abrangente de como o voo espacial impacta o corpo humano, monitorizando as alterações fisiológicas ao longo do tempo e identificando tendências que possam orientar o treino, a reabilitação e o planeamento de missões.

A tripulação fornecerá amostras biológicas, incluindo sangue, urina e saliva, para avaliação do estado nutricional, saúde cardiovascular e função imunitária, a partir de cerca de seis meses antes do lançamento. A tripulação participará ainda em testes e inquéritos que avaliam o equilíbrio, a função vestibular, o desempenho muscular, as alterações do microbioma, bem como a saúde ocular e cerebral.

Durante a estadia no espaço, a recolha de dados incluirá uma avaliação dos sintomas de cinetose. Após a aterragem, serão realizados testes adicionais aos movimentos da cabeça, dos olhos e do corpo, entre outras tarefas de desempenho funcional. A recolha de dados continuará durante um mês após o regresso da tripulação.

Durante a missão será também feita a monitorização da radiação. A radiação espacial representa um dos maiores riscos para a saúde dos astronautas, especialmente durante missões para além do campo magnético protetor da Terra. A monitorização da radiação envolve o rastreio dos níveis de exposição através de seis sensores de radiação activos, instalados em vários locais dentro do módulo de tripulação Orion. A tripulação usará também dosímetros nos bolsos. Estes sensores emitirão alertas sobre níveis perigosos de radiação. Se necessário, estes dados serão também utilizados pelo controlo da missão para decidir se a tripulação deve abrigar-se para se proteger da exposição à radiação devido a tempestades solares.

Uma bola de basquetebol segura à distância de um braço – é assim que a Lua se parecerá para a tripulação da Artemis-II enquanto a Orion a sobrevoa a uma distância de 6.400 km a 9.700 km da superfície lunar. Os tripulantes poderão também ser os primeiros humanos a ver, a olho nu, partes do lado oculto da Lua – o lado que está sempre virado para longe da Terra – dependendo da trajectória final da nave espacial, determinada no lançamento.

Com análise de dados em tempo real e orientação fornecida por uma equipa de cientistas especialistas em crateras de impacto, vulcanismo, tectonismo e gelo lunar, a tripulação irá observar e fotografar formações geológicas como crateras de impacto, antigos fluxos de lava e, possivelmente, regiões como a Bacia Orientale. Estas observações permitirão ajudar os cientistas a compreender os antigos processos geológicos que moldaram a Lua e o nosso sistema solar, e apoiar futuras missões na superfície lunar, como a Artemis-III, que irá aterrar perto do Pólo Sul da Lua – uma região rica em rochas antigas e gelo de água.

Os astronautas da Artemis-II utilizarão os seus conhecimentos de geologia para descrever texturas, formas e cores da superfície lunar, fornecendo dados valiosos para futuras explorações da Lua. Poderão também testemunhar impactos de meteoroides e fenómenos raros, como a levitação de poeiras, oferecendo informações sobre a atividade lunar.

Texto baseado no artigo Artemis II: Scientific research during the mission

Imagens: NASA



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