Publicado em 23 de junho de 2026 por Rui C. Barbosa

SpaceX lança missão de demonstração do Projecto Starfall – o cheiro de uma missão militar pela manhã

A empresa norte-americana Space Exploration Technologies Corp. (SpaceX), realizou o lançamento da missão de demonstração do seu Projecto Starfall.

O lançamento ocorreu às 1053:00UTC do dia 23 de Junho de 2026 e foi realizado pelo foguetão Falcon 9-656 (B1078.29) a partir do Complexo de Lançamento SLC-40 do Cabo Canaveral SFS, Florida. O primeiro estágio B1078, na sua 29.ª missão, foi recuperado com sucesso na plataforma flutuante A Shortfall Of Gravitas, no Oceano Atlântico.

As fases do lançamento após a separação e aterragem do primeiro estágio foram envoltas em secretismo, com a empresa a não divulgar as fases posteriores da missão e podendo isso ser indicativo de uma fase militar da missão apesar do Projecto Starfall ser divulgado como um projecto civil.

Pelas 1401UTC, a SpaceX anunciava a separação da cápsula Starfall. Até às 1600UTC não havia sido confirmado o sucesso da missão. O plano de recuperação do veículo após a aterragem na água inclui a remoção dos pára-quedas, escudos térmicos e outros componentes, sempre que possível.

Após o lançamento, o veículo Starfall permanecerá acoplado ao segundo estágio do lançador antes de ser desorbitado para reentrada na atmosfera, com o objetivo final de amarar no Oceano Pacífico poucas horas após o lançamento.

O Projecto Starfall

O veículo Starfall tem 3,1 m de diâmetro, 0,75 m de altura e uma massa aproximada de 2.100 kg. Os veículos de reentrada serão capazes de transportar cargas úteis até 1.000 kg, permitindo o transporte de carga ponto a ponto e serviços de fabrico em órbita. A cápsula Starfall é composta por duas secções. A secção superior, ou “placa superior”, consiste numa estrutura de alumínio parcialmente revestida com material de proteção térmica. Esta placa superior pesa aproximadamente 1.400 kg. A secção inferior, o escudo térmico, apresenta uma estrutura de fibra de carbono revestida com material de proteção térmica, com dois vasos de pressão revestidos a carbono (COPVs, Carbon-Overwrapped Pressure Vessels) e cilindros auxiliares mais pequenos de gás comprimido. O escudo térmico pesa aproximadamente 700 kg. Após a reentrada, o escudo térmico e a placa superior separam-se. Durante a reentrada, a Starfall utilizará um gás inerte proveniente do interior dos COPVs para controlar a sua atitude. Um pára-quedas de travagem e um pára-quedas principal são accionados após a fase de plasma da reentrada para reduzir a velocidade do veículo a um nível seguro para a amaragem. Não se sabe ao certo quando ocorre a separação do escudo térmico e da placa superior em relação ao accionamento dos pára-quedas.

Segundo a SpaceX os veículos Starfall deverão ser utilizados numa vasta gama de aplicações, sendo uma dessas aplicações a sua utilização como recurso militar. A capacidade de entrega de carga peer-to-peer do Starfall poderia ser utilizada pelas forças armadas para entregar carga ou mantimentos críticos a zonas de conflito ou áreas carenciadas que necessitem de apoio militar.

Com um claro objectivo militar, a SpaceX tenta no entanto apresentar este projecto com as suas vantagens civis, nomeadamente o fabrico em órbita de medicamentos e materiais avançados. A fabricação destes produtos em ambiente de microgravidade oferece diversas vantagens, e espera-se que as cápsulas Starfall os tragam de volta à Terra depois de serem fabricados em órbita. Além disso, quando as estações espaciais comerciais estiverem operacionais, espera-se que veículos de reentrada como o Starfall sejam utilizados para trazer rapidamente itens de volta à Terra, em vez de esperar que uma nave de carga ou tripulada parta, aumentando assim a frequência com que a massa regressa à Terra.  

Lançamento

A cerca de dez horas do lançamento procede-se à activação eléctrica do foguetão Falcon-9. Tanto o lançador como a sua carga são submetidos a uma série de verificações testes antes do início do abastecimento do querosene RP-1. O Director de Voo consulta os controladores a T-38m, determinando assim se tudo está pronto para o início do abastecimento do lançador. O processo de abastecimento de RP-1 inicia-se a T-35m no primeiro estágio, seguindo-se o início do abastecimento do oxigénio líquido (LOX) na mesma altura. O abastecimento de LOX ao segundo estágio inicia-se a T-16m.

A fase terminal da contagem decrescente inicia-se com os motores a serem condicionados termicamente para o lançamento a T-7m. A T-1m é enviado um comando para o computador de voo para iniciar as verificações pré-lançamento e o sistema de supressão sónica é activado na plataforma de lançamento inundada por milhões de litros de água. Por esta altura os tanques de propelente também são pressurizados. A T-45s o Director de Lançamento verifica se todos os parâmetros estão prontos para a missão, sendo também verificado que o espaço aéreo está pronto para o lançamento. A sequência de ignição é iniciada a T-3s. A T=0s o foguetão abandona a plataforma.

Abandonando a plataforma de lançamento, o Falcon-9 inicia uma série de manobras para se colocar na trajectória de voo correcta.

Após a separação, os satélites entram num período de verificação em órbita antes de iniciar as manobras de elevação orbital para atingir os seus parâmetros orbitais operacionais.

O foguetão Falcon-9

Baptizado em nome da nave Millenium Falcon da saga cinematográfica “Guerra das Estrelas”, o foguetão Falcon-9 v1.1 foi um lançador a dois estágios projectado e fabricado para o transporte seguro e fiável de satélites e do veículo Dragon para a órbita terrestre. Sendo o primeiro foguetão completamente desenvolvido no Século XXI, este lançador foi projectado desde o início para ter a máxima fiabilidade. A sua simples configuração de dois estágios minimiza o número de eventos de separação (staging) e com nove motores no primeiro estágio, pode completar a sua missão em segurança mesmo na possibilidade de perda de um motor.

O Falcon-9 fez história em 2012 quando colocou a cápsula Dragon na órbita correcta para uma manobra de encontro com a estação espacial internacional. Desde então, foram realizadas múltiplas missões para a ISS transportando e recolhendo carga para a NASA. O Falcon-9, bem como a cápsula Dragon, foram desenhados na base do desenvolvimento de um sistema de transporte de astronautas para o espaço.

O foguetão Falcon-9 Upgrade, ou Falcon-9 FT, (a seguir designado simplesmente como “Falcon-9”) representa a mais recente evolução deste lançador. De forma geral, o Falcon-9 tem 68,4 metros de comprimento, 3,7 metros de diâmetro e uma massa de 541.300 kg. O veículo é capaz de colocar uma carga de 13.150 kg numa órbita terrestre baixa ou 4.850 kg numa órbita de transferência geossíncrona.

O primeiro estágio do Falcon-9 está equipado com nove motores Merlin (Merlin-1D) e tanque de liga de alumínio e lítio que contêm oxigénio líquido e querosene RP-1. Após a ignição, um sistema de segurança fixa o veículo na plataforma de lançamento e garante que todos os motores são verificados como estando na força máxima antes de libertar o foguetão para o seu voo. Então, com uma força superior a cinco aviões Boeing 747 em potência máxima, os motores Merlin lançam o foguetão para o espaço. Ao contrário dos aviões, a força de um foguetão vai aumentando com a altitude – o Falcon-9 gera 6.806 kN ao nível do mar, mas atinge 7.426 kN no vácuo espacial. Os motores do primeiro estágio vão sendo aumentados em potência perto do final da queima do estágio para assim limitar a aceleração do veículo à medida que a massa do lançador diminui com a queima do combustível. O tempo total de queima do primeiro estágio é de 162 segundos.

Com os seus nove motores agrupados juntos na configuração ‘octaweb’, o Falcon-9 pode aguentar a falha de até dois motores durante o lançamento e mesmo assim conseguir atingir a órbita terrestre com sucesso. O Falcon-9 é o único lançador na sua classe com esta característica chave.

O motor Merlin vai encontrar as suas raízes aos motores das missões Apollo, nomeadamente o sistema de injecção baseado no motor do módulo lunar. O propelente é alimentado por uma única conduta, com uma turbo bomba de dupla pá que opera num ciclo de gerador a gás. A turbo bomba também fornece o querosene a alta pressão para os actuadores hidráulicos, que depois recicla para a entrada a baixa pressão. Isto elimina a necessidade de um sistema hidráulico separado e significa que não é possível ocorrer uma falha no controlo de vector de força por falta de fluido hidráulico. Uma terceira utilização da turbo bomba é o fornecimento de controlo de rotação ao actuar no escape da turbina de exaustão (no segundo estágio). Combinando-se estas características num só dispositivo aumenta-se assim de forma significativa o nível de fiabilidade do sistema.

O motor é capaz de desenvolver uma força de 654 kN ao nível do mar, 716 kN no vácuo, com um impulso específico de 282 segundos (nível do mar) e 311 segundos (vácuo).

A secção interestágio é uma estrutura compósita que liga o primeiro e o segundo estágio e alberga os sistemas de libertação e separação. O Falcon-9 utiliza um sistema de separação totalmente pneumático para uma separação de baixo impacto e altamente fiável que pode ser testado no solo, ao contrário dos sistemas pirotécnicos utilizados na maior parte dos lançadores.

O segundo estágio é propulsionado por um único motor Merlin de vácuo e coloca a carga a transportar na órbita desejada. O motor do segundo estágio entra em ignição poucos segundos após a separação entre o segundo e o primeiro estágio, e pode ser reiniciado várias vezes para colocar múltiplas cargas em diferentes órbitas. Para máxima fiabilidade, o segundo estágio está equipado com sistemas de ignição redundantes. Tal como o primeiro estágio, o segundo estágio é feito a partir de uma liga de alumínio e lítio.

O motor Merlin de vácuo (Merlin-1D de vácuo) desenvolve uma força de 934 kN e o seu tempo de queima é de 397 segundos.

A carenagem compósita é utilizada para proteger a carga durante a passagem do Falcon-9 pelas camadas mais densas da atmosfera. Quando a missão do Falcon-9 é o lançamento do veículo de carga Dragon, a carenagem não é utilizada, pois a cápsula possui o seu próprio sistema de protecção.

A carenagem tem 13,1 metros de comprimento e 5,2 metros de diâmetro. Fabricada em fibra de carbono, separa-se em duas metades utilizando um sistema de separação de actuadores pneumáticos semelhantes aos que são utilizados para a separação entre o primeiro e o segundo estágio.

A sequência de lançamento para o Falcon-9 é um processo de precisão ditada pela janela de lançamento tendo em conta a posição orbital a ser ocupada pela carga a bordo. Se a janela de lançamento é perdida, a missão é então adiada para a próxima janela de lançamento disponível.

Cerca de quatro horas antes do lançamento, inicia-se o processo de abastecimento – primeiro oxigénio líquido seguindo-se o querosene altamente refinado (RP-1). O vapor observado a sair do lançador durante a contagem decrescente é na realidade oxigénio a ser liberto dos tanques, sendo esta a razão pela qual o abastecimento de oxigénio líquido se mantém até quase ao final da contagem decrescente.

LançamentoVeículo1.º estágioLocal LançamentoData Hora (UTC)CargaRecuperação
2026-123647B1090.12CCSFS, SLC-4004/Jun/26 10:26:30Starlink G10-43ASOG
2026-126648B1097.10VSFB, SLC-4E07/Jun/26 04:24:45Starlink G17-43 USA-608 USA-609OCISLY
2026-127649B1067.35CCSFS, SLC-4008/Jun/26 10:13:50Starlink G10-35ASOG
2026-131650B1071.34VSFB, SLC-4E08/Jun/26 10:05:59Starlink G17-44OCISLY
2026-133651B1080.27CCSFS, SLC-4012/Jun/26 12:37:00Starlink G10-54ASOG
2026-135652B1093.14VSFB, SLC-4E15/Jun/26 15:34:35Starlink G17-54OCISLY
2026-138653B1077.29CCSFS, SLC-4017/Jun/26 06:39BlueBird-8 BlueBird-9 BlueBird-10ASOG
2026-141654B1100.3VSFB, SLC-4E19/Jun/26 08:50:45NROL-179LZ-4
2026-143655B1063.33VSFB, SLC-4E21/Jun/26 16:39:06Starlink G17-28OCISLY
2026-145656B1078.29CCSFS, SLC-4023/Jun/26 10:53:00Starfall DemoASOG

  Imagens: SpaceX, Boletim Em Órbita

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